sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

MORTE DAS CASAS DE OURO PRETO

Morte das casas de Ouro Preto

Carlos Drummond de Andrade

Sobre o tempo, sobre a taipa,
a chuva escorre. As paredes
que viram morrer os homens,
que viram fugir o ouro,
que viram finar-se o reino,
que viram, reviram, viram,
já não vêem. Também morrem.

Assim plantadas no outeiro,
menos rudes que orgulhosas
na sua pobreza branca,
azul e rosa e zarcão,
ai, pareciam eternas!
Não eram. E cai a chuva
sobre rótula e portão.

Vai-se a rótula crivando
como a renda consumida
de um vestido funerário.
E ruindo se vai a porta.
Só a chuva monorrítmica
sobre a noite, sobre a história
goteja. Morrem as casas.

Morrem, severas. É tempo
de fatigar-se a matéria
por muito servir ao homem,
e de o barro dissolver-se.
Nem parecia, na serra,
que as coisas sempre cambiam
de si, em si. Hoje vão-se.

O chão começa a chamar
as formas estruturadas
faz tanto tempo. Convoca-as
a serem terra outra vez.
Que se incorporem as árvores
hoje vigas! Volte o pó
a ser pó pelas estradas!

A chuva desce, às canadas.
Como chove, como pinga
no país das remembranças!
Como bate, como fere,
como traspassa a medula,
como punge, como lanha
o fino dardo da chuva
mineira, sobre as colinas!
Minhas casas fustigadas,
minhas paredes zurzidas,
minhas esteiras de forro,
meus cachorros de beiral,
meus paços de telha-vã
estão úmidos e humildes.

Lá vão, enxurrada abaixo
as velhas casas honradas
em que se amou e pariu,
em que se guardou moeda
e no frio se bebeu.
Vão no vento, na caliça,
no morcego, vão na geada,

enquanto se espalham outras
em polvorentas partículas,
sem as vermos fenecer.
Ai, como morrem as casas!
Como se deixam morrer!
E descascadas e secas,
ei-las sumindo-se no ar.

Sobre a cidade concentro
o olhar experimentado,
esse agudo olhar afiado
de quem é douto no assunto.
(Quantos perdi me ensinaram.)
Vejo a coisa pegajosa,
vai circunvoando na calma.

Não basta ver morte de homem
para conhecê-la bem.
Mil outras brotam em nós,
à nossa roda, no chão.
A morte baixou dos ermos,
gavião molhado. Seu bico
vai lavrando o paredão

e dissolvendo a cidade.
Sobre a ponte, sobre a pedra,
sobre a cambraia de Nize,
uma colcha de neblina
(já não é a chuva forte)
me conta por que mistério
o amor se banha na morte.

MUSEU DA INCONFIDÊNCIA

São palavras no chão
E memórias nos autos.
As casas inda restam,
Os amores, mais não.
E restam poucas roupas,
Sobrepeliz de pároco
E vara de um juiz,
Anjos, púrpuras, ecos
Macia flor de olvido,
Sem aroma governas
O tempo ingovernável.
Muitos pranteiam. Só.
Toda a história é remorso.

OS BENS E O SANGUE

Carlos Drummond de Andrade Os urubus do telhado: E virá a companhia inglesa e por sua vez comprará tudo e por sua vez perderá tudo e tudo volverá a nada e secado o ouro escorrerá ferro, e secos morros de ferro taparão0 o vale sinistro onde não mais haverá privilégios, e se irão os últimos escravos, e virão os primeiros camaradas; e a besta belisa renderá os arrogantes corcéis da monarquia, e a vaca belisa dará leite no curral vazio para o menino doentio, e o menino crescerá sombrio, e os antepassados no cemitério se rirão, se rirão porque os mortos não choram.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O DESENVOLVIMENTO FRUSTRADO

Lançado no dia 18 de outubro, o Índice Mineiro de Responsabilidade Social (IMRS) recebeu amplo destaque nos meios de comunicação de Minas Gerais. O IMRS é uma avaliação na qual são submetidos os municípios mineiros segundo a qualidade e quantidade de suas políticas públicas. Em matéria do dia 19/10/11, o Estado de Minas mostra o ranking dos municípios mineiros na pesquisa dando ênfase para o fato de que, dos 10 municípios melhores colocados no ranking, 8 têm na mineração uma de suas principais atividades econômicas, o que supostamente mostra “uma rota de riquezas minerais que fortalece economias e garante bem-estar para quem por ali escolher viver” . Por outro lado, os 10 piores são municípios do Vale do Jequitinhonha. A pesquisa foi realizada tendo como base 500 indicadores (dimensão grandiosa que não dá automaticamente validade à pesquisa) em 10 segmentos, como saúde, segurança, cultura, etc. Poderia muito bem entrar numa discussão sobre os métodos da pesquisa que levam em conta essa miríade de indicadores que num pequeno erro podem desvirtuar o resto da pesquisa, mas partirei do pressuposto que sim, a mineração garante maiores receitas para investimentos públicos por parte do município. A primeira coisa que podemos dizer é que essa constatação acima é óbvia. Ora, se temos uma atividade econômica com grande produção de capital, e existem formas de arrecadação pública sobre essa atividade, consequentemente, ela incidirá positivamente no caixa das prefeituras locais, o que por sua vez garante um espaço maior de ação para políticas que vão atender melhor as necessidade e demandas da população local. Mas a reflexão não deve se deter aí, pois o que realmente importa nesse quadro quantitativo é a interpretação que fazemos dele, e sem essa reflexão mais profunda podemos nos enganar, a pesquisa pode ser mal utilizada. Então é importante entender que a mineração produz grandes divisas. É só analisar os lucros das mineradoras – por exemplo, a Vale lucrou em 2010 R$ 30,1 bilhões. Porém, é esse o perigo do raciocínio automático, que simplesmente legitima a atividade mineradora pela grandeza da riqueza criada. Tendo em vista os lucros bilionários, a região torna-se dependente da mineração numa espécie de ciclo vicioso que tem data marcada para acabar, isso é, quando findarem as minas. Já aconteceu e vem acontecendo em várias regiões de Minas Gerais. Mas pra além dessa dependência, temos que ter em mente a potencialidade não-atingida pela mineração, uma espécie de potencialidade frustrada, ou, como prefiro chamar, desenvolvimento frustrado. Sim, porque a mineração pode servir de trampolim para atingirmos outros tipos de atividades com menores prejuízos socioambientais e com benefícios sociais e econômicos muito maiores. O fato é que a mineração cria pouquíssimos empregos diretos – que são em sua maioria de mão de obra altamente especializada -, que mesmo com o efeito multiplicador - empregos indiretos - têm número inferior se comparado ao de outras atividades econômicas. Ainda, podemos listar uma série de prejuízos causados pela mineração que não são considerados no IMRS 2011, o que invalida a afirmação ideológica de que se trata de “uma rota de riquezas minerais que fortalece economias e garante bem-estar para quem por ali escolher viver”: a contaminação, destruição e assoreamento de rios e reservatórios de água; as renúncias fiscais na água, energia e no imposto de circulação de mercadorias; os gastos com a criação e manutenção de infra-estrutura de transportes (tanto em estradas como em minério-dutos e ferrovias); a construção e manutenção de represas de rejeitos; destruição de formas de produção tradicionais; a sobrecarga do sistema de saúde local; o aumento da violência urbana; os gastos com o crescimento populacional repentino; a instabilidade nos preços do minério de ferro no mercado internacional; a concentração de renda e a desigualdade social; a renúncia ao incentivo de outras atividades econômicas que poderiam significar um desenvolvimento real da região; os constantes “acidentes” de trabalho; a superexploração do trabalho (com efeitos drakonianos como a silicose); a limitada oferta de postos de trabalho. Isso tudo justifica o incentivo a outros tipos de atividades econômicas. O aumento do Cfem – que não é um imposto, e sim uma compensação ao município pelos danos causados pela mineração - é fundamental para arrecadação de fundos. Essa compensação é por demais reduzida. No caso do minério de ferro, são 2% descontados no lucro líquido das mineradoras. No Canadá e Austrália, países “vivem” de mineração, o royaltie chega a 18% do lucro bruto. Em conluio com as mineradoras, Aécio Neves lançou um vergonhoso projeto com apenas 5% descontados do lucro líquido, uma hábil manobra política tendo em vista a perspectiva ainda maior de alta no royaltie do minério causado pelos paralelos debates do royaltie do petróleo. Junto a isso, devem haver mecanismos legais de incentivo a mais avançadas formas de produção, com um planejamento de médio e longo prazo. O perigo dessa pesquisa está no tipo de interpretação que realizamos ao lê-la. Como qualquer pesquisa quantitativa, o que importa é a interpretação dos números. Por isso, essa pesquisa pode ser mal manuseada e servir de legitimadora para a manutenção da mineração. Mas também podemos entendê-la como mera constatação do óbvio, o crescimento dos recursos das prefeituras podem influenciar na melhoria das políticas públicas. Porém, ainda é pouco, muito pouco perto da potencialidade da renda criada. Quase tudo fica para as mineradoras, e para população local restam algumas migalhas da gigantesca acumulação de capital dessa atividade. O que essa pesquisa não mostra é o nosso desenvolvimento frustrado.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

CONFISSÕES DE UM VÂNDALO, VAGABUNDO E MACONHEIRO

Gostaria de fazer aqui um rápido relato. Primeiro quero dizer que sou um desses "vagabundos", "maconheiros" e "vândalos" que tanto andam falando por aí nos jornais. Na verdade, nunca fui de fumar maconha, mas quando me chamavam de maconheiro - e foram muitas vezes- não me importava, de certa forma até me orgulhava por ver que meus interlocutores eram os mesmos que defendiam, por exemplo, a pena capital. Cabeludo, barbudo, jovem, era assim. O "vagabundo" vai provavelmente pela natureza de meu trabalho que é profundamente intelectual e reflexivo, algo que até me deixa incomodado algumas vezes. Assim é no último país a acabar com a escravidão. Sou sociólogo, futura profissão de inúmeros manifestantes que ocuparam a reitoria da USP recentemente, sei eu. "Vândalo"? Talvez. Não foram poucas as confusões, brigas, bebedeiras em que me envolvi. Mas lembro-me de algum grande escritor que disse: a grandeza do homem não está na falta de vícios, mas sim na autoria de grandes obras Humanas. E sei que como eu são vários dos manifestantes da USP. Deixando ainda mais claro: sim, me identifico com eles, e por isso acho que posso falar algo em defesa deles.
Os manifestantes, pelo o que li, são em geral de cursos da área de humanas, como Geografia, Letras, História, Ciência Política e por aí vai. E aqui também posso dizer algo, afinal conheço várias pessoas com essa formação.
Até mesmo participei de várias mobilizações estudantis, incluindo uma ocupação da Casa do Estudante da UEL e uma quase ocupação da reitoria da mesma universidade. Se me arrependo? Muito pelo contrário, vejo que aqueles anos foram fundamentais para minha formação política e até mesmo para atingir as algumas das tão importantes reivindicações estudantis.
Mas quero dizer algo mais. Sou também a mesma pessoa que ministrou aulas de Sociologia em escolas públicas, lá quando ganhava R$ 600,00 por mês. Sou a mesma pessoa que trabalhou no Bolsa-Família e em vários projetos sociais. Sou o mesmo que pauta a própria vida para que a Mineração torne-se uma forma de desenvolvimento real e genuíno para minha gente. Sou o mesmo que já recebeu ameaças por achar que as pessoas devem ser tratadas de forma igual. Penso e luto para que a gente que você tanto insiste em ignorar possa um dia gozar dos benefícios para o pleno desenvolvimento das potencialidades humanas.
Mas não quero ser ególatra e citar apenas o meu caso. Quero lembrar as centenas de amigos meus que tanto contribuem pra que as coisas mudem pra melhor. Quero citar um amigo em especial. Na minha visão (e sei eu, a real) ele era sambista, anarquista, cientista social, negro, altruísta, um ser humano completo. Bem, ele morreu voltando do trabalho. Sabe onde ele trabalhava? Num abrigo para mendigos. Sabe como ele voltava do trabalho? De bicicleta, e assim foi levado por uma enxurrada. Ele mesmo que provavelmente seria taxado de “vagabundo”, “maconheiro” e “vândalo”.
E existem muitos outros mais como ele atuando no cotidiano de nosso país, grandes heróis de pequenos lugares que realmente fazem algo extremamente importante. A grande maioria, sei eu, em trabalhos extremamente extenuantes e pouco atraentes financeiramente. Se existem utopias é exatamente por causa de pessoas assim. Por isso não tolero a entonação de suas acusações contra nós. Traduzindo, a mídia pode estar manipulando o ocorrido, porém essa manipulação encontra respaldo no conservadorismo da maioria.
Trata-se de mais um preconceito construído historicamente contra grupos identificados com a esquerda, algo muito recorrente durante a Guerra Fria e a Ditadura Militar. Aqui está o grotão do conservadorismo! Desnaturalizemos essa tolice!

A USP, A CLASSE MÉDIA E A MÍDIA

O fato é que periodicamente a grande mídia pauta o debate nacional em discussões tontas e improdutivas, com abordagens que prejudicam ainda mais o já-frágil assunto, se aproveitando dos grotões conservadores da classe média. O último havia sido o papo do SUS pro Lula e o regozijo calado com a sua doença.

Os alunos da Usp não se revoltaram simplesmente pela presença da PM, e sim pela prisão de alguns alunos por posse de maconha. No caso, podemos sugerir outra discussão: a legalização das drogas (ou de algumas delas), que me parece ser a discussão levantada por muitos dos integrantes do movimento.

Além do que, é minimamente razoável reconhecer os problemas históricos entre militares e estudantes, e ver que existem um milhão de outras formas de garantir segurança num campus sem necessidade de uma PM.

Os estudantes são historicamente um dos setores mais progressistas do país e, sinceramente, não vejo necessidade de criticá-los com essa raiva e ressentimento sem qualquer propósito. Conquistaram direitos que todos nós aproveitamos hoje em dia.

Quem sabe a grande mídia faz isso para manter a manipulação do pensamento coletivo, ou apenas por ser garantia de gerar algum lucro com o conservadorismo das classes médias nativas. Só o fato de haver um foco do país inteiro nesse debate já é, por si só, uma estupidez completa.

A pergunta é: pra quê criticar a ocupação da reitoria por alguns alunos? Essas discussões são uma crítica contida contra a esquerda, afastando o "perigo" vermelho, mesmo que se digam despolitizadas. Existem pelo menos uns 10 mil assuntos muito mais importantes os quais o conservadorismo de classe média e a grande mídia não deixam brotar.

terça-feira, 19 de julho de 2011

AS CHAGAS DO SUBDESENVOLVIMENTO: O ORNITORRINCO




De tempos em tempos ressurge das cinzas um debate influenciado pelo evolucionismo. Muitos advogam que nos dias de hoje - assim como já o fizeram no passado - a tese de que o Brasil é uma potência mundial, que devido a uma série de fatores somos um “global player”. Eu não sei muito bem o que essa obtusa expressão significa, mas utilizando o meu surrado inglês, diria que o Brasil é um “peripherical player”, pra não dizer “subordinated player”. Como sabemos, durante o século XX, o Brasil passou de uma economia monoprodutora de café, com uma população fundamentalmente rural, para uma economia com variabilidade maior de atividades, passando pela industrialização. Esse processo atingiu seu auge nos anos 60s. O fato é que, já há algum tempo, o Brasil não se encaixa mais no perfil clássico de país subdesenvolvido, isso é, país monoprodutor de matéria-prima e com inserção periférica na economia mundial, pois conta com um robusto parque industrial além de ter certa importância dentro das decisões políticas mundiais. Porém, ao mesmo tempo em que já não é um país subdesenvolvido, também não o podemos classificá-lo como desenvolvido. Como disse Roberto Schwartz, a condição do Brasil se define pelo o que ela não é, isso é, nem sub e muito menos desenvolvido.

deixou de ser subdesenvolvido, pois as brechas propiciadas pela Segunda Revolução Industrial, que faziam supôr possíveis os indispensáveis avanços recuperadores, se fecharam. Nem por isso ele é capaz de passar para o novo regime de acumulação e não diminuem as desigualdades sociais.

Chico de Oliveira diz que nos aproximamos do ornitorrinco, um ser estranho aos padrões existentes, disforme e enigmático. Dentro dessa situação alheia ao binômio clássico (desenvolvimento x subdesenvolvimento) o fundamental é que se mantenha a acumulação de capital e a aprofunde ainda mais, não importando seus efeitos sociais. E é esse o grande problema, mesmo que tenha uma economia robusta e, de certa forma, vibrante, mantém as características sociais funestas do subdesenvolvimento. A concentração de renda se dá em níveis nunca antes vistos, relegando a maioria da população à miséria, e mais que isso, tendo a farta oferta de mão de obra como condição sine qua non para acumulação e reprodução do capital, mesmo que isso implique em altas taxas de desemprego, informalidade, pobreza, violência, etc. Assim, o subdesenvolvimento é ainda uma chaga aberta no Brasil.

O importante é notarmos que a condição de semiperiferia pode nos enganar. E parece ser o que vem acontecendo. O pior é que esse engano tende a aprofundar ainda mais nossa condição de dependência frente aos mandos e desmandos da economia mundial, aumentando a vulnerabilidade externa de nossa economia, novamente lembrando que tudo isso se faz em nome de uma maior acumulação de capital encampada pelas elites exportadoras de commodities e, principalmente, pelo capital financeiro nacional e internacional. A relevância do Brasil no mercado mundial é relativa. O economista Reinaldo Gonçalves nos mostra que:

O Brasil não é um fornecedor de poupança externa, nossa moeda não existe no cenário internacional e, como disse, nosso passivo externo é altamente elevado. Tudo isso demonstra que o País não tem peso no sistema monetário, nem financeiro.

E ainda que:

Quando começou o governo Lula, o Brasil representava 2,9% do PIB mundial. Quando terminou o governo Lula, o Brasil representava 2,9% do PIB mundial. Portanto, estagnou na competição global.

A cilada de longo prazo parece estar dada pelas condições de retração da indústria: a forte valorização do real frente ao dólar, o que incentiva as importações em detrimento da indústria nacional; uma agenda econômica travada, com o discurso de que seria o forte aquecimento da economia brasileira o causador do aumento da inflação, o que justifica a retração dos investimentos públicos. É exemplar o estudo realizado pela Fundação João Pinheiro, de junho, sobre a indústria em Minas Gerais, mostrando que a “os fatores contribuintes para a desaceleração do crescimento em Minas Gerais são os mesmos apontados no plano nacional: a retirada dos estímulos fiscais para o fortalecimento da demanda agregada ao longo do segundo semestre do ano passado; as medidas de restrição ao crédito bancário dos últimos meses de 2010; a contínua elevação da taxa básica de juros pelo Banco Central; e o arrefecimento do ânimo de formação de capital das empresas após o surto de investimento privado observado durante o segundo semestre de 2009 e o primeiro semestre de 2010”.

Em texto publicado aqui no blog, Maria Lucia Fattorelli mostra que o que ocorre é a inflação de preços, “provocada por contínuos e elevados reajustes dos preços de alimentos e preços administrados, tais como combustíveis, energia elétrica, telefonia, transporte público, serviços bancários”, resultado em grande parte da especulação dos preços no mercado financeiro (o que evidencia nossa vulnerabilidade externa), e não pelo aumento desenfreado da demanda, que vem crescentemente sendo atendida por produtos importados. A constante alta da taxa de juros Selic se mostra no horizonte insustentável pelo crescimento exponencial da dívida pública. Hoje quase metade dos recursos da União são drenados para o pagamento dos juros da dívida que só aumentam, recursos que em um “global player” seriam direcionados para a educação (que teve 2,89% do orçamento da União este ano), saúde (3,91%), investimento em infra-estrutura, etc. A alta taxa de juros desincentiva investimentos a longo prazo, o que é fundamental num país com pretensões de potência mundial. Para muitos estudiosos do tema, o “tombo” da economia brasileira virá com a futura freada do consumo de matérias-primas do mercado chinês, o que derrubará o preço das commodities. Os atuais cortes de investimentos públicos (R$ 50 bilhões) mostram que a prioridade é pagamento dos juros da dívida por meio de um cada vez mais forçado superávit primário na balança comercial. O que nota-se numa correlação de forças sociais é a hegemonia financeira, tendo em vista a gigantesca transferência de recursos públicos para o capital financeiro internacional e nacional por meio dos títulos da dívida pública. Mais do que nunca, vivemos na República do Capital Financeiro, o ornitorrinco só organizou novas formas de acumulação que chegam a níveis nunca atingidos antes:

Em resumo, para combater o risco inflacionário, estamos “enxugando” o excesso de moeda que evidentemente não decorre de superaquecimento da atividade econômica no país, mas de movimento especulativo que tem beneficiado escandalosamente o setor financeiro nacional e internacional, cujos lucros batem recordes anuais e superam dezenas de bilhões de dólares (Fattorelli).

Em outras palavras, somos governados por banqueiros que drenam os recursos do Estado para seus bolsos, recursos conseguidos principalmente por meio dos impostos dos mais pobres do país, já que nossa carga tributária é altamente regressiva taxando fortemente o consumo ao invés da propriedade, isso é, o imposto que o pobre paga ao comprar 1 kg de arroz é o mesmo que paga o rico, mas a fatia de seu orçamento taxado é muito maior frente ao orçamento dos mais ricos. É esse o desenho da espoliação funesta que acontece em nosso país.

Podemos também dizer que o Brasil está longe de se tornar uma potência mundial ao analisarmos seus esparsos investimentos em Ciência e Tecnologia, mantendo a sua dependência por avanços nessa área vindos dos países centrais do capitalismo. Estamos envoltos numa espécia de neo-atraso, que assume novas características, diferentes em alguns aspectos do subdesenvolvimento clássico, mas que mantém o principal: a concentração da renda, o aumento das desigualdades e a superexploração do trabalho. Pra finalizar gostaria de destacar que não existe uma estrada rumo ao desenvolvimento, e caso exista, é um “desenvolvimento das forças produtivas” que “desgraça uma parte da humanidade, em lugar de salvá-la; o subdesenvolvimento deixa de existir, não assim suas calamidades” (Schwartz). Poderíamos pensar, nesse sentido, como André Gunder Frank, em um ”desenvolvimento do subdesenvolvimento”. Precisamos buscar novas alternativas, do contrário, chegamos a um “beco sem saída” rostowniano*.

* Walt Whitman Rostow- economista do começo do século XX que defendeu a plausibilidade de um caminho linear entre sub e desenvolvimento.

ANÁLISE DAS ENTREVISTAS COM EX-TRABALHADORES DA MMV


Saídas e Bandeiras


Milton Nascimento e Fernando Brant

O que vocês diriam dessa coisa que não dá mais pé?
O que vocês fariam pra sair dessa maré?
O que era sonho virou terra
quem vai ser o primeiro a me responder?

O que vocês diriam dessa coisa que não dá mais pé?
O que vocês fariam pra sair dessa maré?
O que era pedra virou terra
quem vai ser o segundo a me responder?


AGRADECIMENTOS ESPECIAIS AOS ALUNOS DO DOM CIRILO DE PAULA!

Exporei aqui a interpretação qualitativa de diferentes discursos sobre a atividade mineira-exportadora, tendo o município de Raposos como espaço geográfico de análise. Neste contexto, analisei três diferentes discursos sobre a mineração, divididos em duas partes:
A primeira parte é a análise do discurso dos ex-trabalhadores da MMV (antiga Mineração Morro Velho e atual Anglo Gold Ashanti), residentes de Raposos. A fonte destes discursos é um trabalho que os alunos da escola Dom Cirilo de Paula Freitas fizeram como parte da disciplina curricular de Sociologia, ministrada por mim no ano de 2009. Os alunos entrevistaram ex-trabalhadores da MMV vitimados pela doença silicose.
Para análise das entrevistas me ajudou muito o excelente trabalho de MINAYO (2004). Nele a autora estuda os efeitos da privatização da CVRD (Companhia Vale do Rio Doce) na subjetividade operária, entrevistando variados grupos. Tomei emprestado alguns procedimentos básicos para análise de entrevista usados pela autora, que são dois: “incidência de ênfase em determinados aspectos da realidade, apreendida na ordenação das informações de campo; e confronto do material empírico com as teorias existente sobre os assuntos classificados” (p.74).
As entrevistas foram registradas por meio da escrita e por gravação de vídeo. A escolha dos alunos tinha como único condicionante que fossem ex-trabalhadores da MMV os entrevistados. A silicose surge como denominador comum nesse contexto, visto a dificuldade de encontrar ex-trabalhadores que não houvessem contraído a doença. Foram oito perguntas compostas por mim e mais oito perguntas criadas pelos alunos.
Ao longo das exposições dos trabalhos dos alunos, notei que muitos deles não conheciam a doença antes das entrevistas, mesmo que vários de seus familiares tivessem a silicose. Após isso, muitos deles começaram a atentar aos problemas de sua própria região e classe social.
Há de se observar que a classe operária constitui um universo cultural próprio que se distingue das outras classes. Partimos do mesmo princípio que MINAYO (2004, p. 67) de que “a posição diferencial de classes dentro da sociedade lhes confere uma forma de agir, pensar e se expressar também diferenciada”. Os operários da mineração têm considerações próprias sobre os efeitos da mineração, sendo eles os que sofrem estas consequências mais diretamente.
Enumerarei quatro aspectos que surgiram na maioria das entrevistas- alguns em todas:
O primeiro aspecto que chama atenção, principalmente porque todos os entrevistados seguiram a mesma direção, é quando perguntados sobre quem eles pensam ter sido o maior beneficiado com as riquezas produzidas na mineração. As respostas são: “a mineradora”, “os donos” ou “sem dúvidas os donos”, “a empresa”, “a Morro Velho”, “o governo e a empresa”, “os acionistas”. Destaca-se a pura ausência de respostas que levasse-nos a crer que os grandes beneficiados fossem os próprios trabalhadores ou a população de Raposos. Isso revela a consciência que tem os trabalhadores frente ao processo exploratório. Isso se deve, provavelmente, ao fato de que os malefícios da mineração se tornaram evidentes com a doença silicose, ou, ainda, pela forte atuação do sindicato da categoria. “Moscou” ou “cidade vermelha” são alguns dos apelidos de Raposos e Nova Lima por causa da atuação histórica dos sindicatos dos trabalhadores da mineração (para maiores detalhes vide GROSSI, 1981). A constatação, em todas as entrevistas, de que os grandes beneficiados são a Mineradora, os acionistas e o Governo, não chega a ameaçar essencialmente a hegemonia mineradora, já que, na maioria das vezes, essa consciência não se traduz em emancipação dos trabalhadores. A razão disso pode ser os aspectos terceiro e quarto que levantarei.
O segundo aspecto, que quero ressaltar, é sobre a continuação da atividade mineira-exportadora. Quando perguntados se ela deve ou não continuar, a resposta uníssona é que sim, deve continuar. As razões para isso são que: a mineração trouxe um suposto desenvolvimento para a cidade; os avanços tecnológicos diminuíram os riscos do trabalho minerador; e que, principalmente, diminui o desemprego. Realmente, com a revolução tecnológica, o trabalho na mineração mudou bastante. Se antes a principal forma de minerar era através do “muque”, do trabalho manual, hoje essa função é exercida principalmente por máquinas. No entanto, os avanços tecnológicos diminuem a oferta de empregos. Novamente, podemos notar a ação do discurso desenvolvimentista, fundamental para a manter a ordem hegemônica.
O terceiro aspecto se mistura ao segundo. É a constatação da evolução tecnológica ao longo da segunda metade do século XX. Para eles, o advento tecnológico resulta na diminuição dos riscos associados ao trabalho minerador. Ainda para os entrevistados, a queda do risco para os operários deve-se, também, à forte atuação sindical na exigência de melhoria das condições de trabalho. Esses dois fatores fizeram com que a taxa de acidentes caísse sensivelmente, o que justificaria a permanência da atividade mineira-exportadora.
O quarto aspecto diz respeito à razão para terem trabalhado com mineração. A grande maioria declarou ter aceito o emprego por falta de opções. Em geral, quando perguntados sobre que conselhos dariam aos jovens trabalhadores que podem entrar na mineração, disseram que é melhor para quem “tiver estudo” evitar o emprego na mineração. Pois, ainda que com os avanços tecnológicos, o risco de acidentes é demasiado alto. A falta de empregos e a miséria evidente das regiões mineradoras facilita o estabelecimento da hegemonia mineradora. O emprego como operário da mineração, por pior que sejam suas condições, acaba sendo a única forma de saciar as necessidades do trabalhador e de sua família.
Por fim, é interessante destacar a frase de Nélson Miguel dos Santos sobre os processos decisórios na região: “a gente, como operário, não tinha muita influência”.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O TEMPO

Continuo brigando com o tempo. Preciso me entender com ele, me deixa ressabiado demais, durmo e acordo com suas maquinações. Essas malditas borboletas que não saem do estômago. Deixo-os com esse magistral trecho de texto sobre o tempo.

"Como se torna difícil a vida quando chega a hora das perdas inexoráveis. Afinal, ela nada mais é do que se espera dela, ou seja, o fatalismo do destino, o crescer e o decrescer,o nascer e o morrer. É uma história antiga, repetitiva. Dentro dessa perspectiva , entretanto, a nossa miserável condição humana acaba por se engrandecer com a experiência do convívio daqueles que souberam como atravessar eretos essa penosa e enigmática trajetória". Carlos A. de Barros Santos

http://massote.pro.br/2011/04/esse-que-se-foi-carlos-a-de-barros-santos/

quinta-feira, 30 de junho de 2011

O maior trem do mundo

Carlos Drummond de Andrade

O maior trem do mundo
Leva minha terra
para Alemanha
leva a minha terra
para o Canadá
leva a minha terra
para o Japão.

O maior trem do mundo puxado por cinco locomotivas à óleo diesel
engatadas geminadas desembestadas
leva o meu tempo, minha infância, minha vida
triturada em 163 vagões de minério e destruição.
O maior trem do mundo
transporta a coisa mínima do mundo
meu coração itabirano.

Lá vai o maior trem do mundo
Vai serpenteando, vai sumindo
E um dia, eu sei, não voltará
Pois nem terra, nem coração existem mais.