sábado, 20 de junho de 2009

RAPOSOS E O CORAÇÃO AMERICANO





San Vicente
Composição: Miltons Nascimento / Fernando Brant
“Coração americano

Acordei de um sonho estranho

Um gosto, vidro e corte

Um sabor de chocolate

No corpo e na cidade

Um sabor de vida e morte

Coração americano

Um sabor de vidro e corte”

Começo esse texto agradecendo ao acaso. Não acredito em destino ou em outras forças maiores que nos movem da forma que querem. Acredito que somos nós homens os que fazemos nosso caminho. Parafraseando Marx: “os homens fazem sua história, mas não a fazem como querem”. Não cumpadre/cumadre, esse texto não será uma discussão transcedental sobre misticismos e leituras de horóscopo, apenas estou feliz pela coincidência de chegar até Raposos. O porquê da coincidência vocês entenderão ao longo do texto. Esta cidade, que tem a primeira igreja matriz de Minas Gerais, localizada no fundo de um vale e que se encontra após Nova Lima e Rio Acima, tem uma história bem usual dessas regiões mineradoras. Tem início (a história pós-indígena, tentando fugir de qualquer eurocentrismo, visto que populações já habitavam a região há milênios) em 1690- antes da existência da capitania das Minas Gerais- quando Pedro de Morais Rapôso veio pra região dos índios cataguás descobrir ouro e diamantes. Seguindo o Rio Guacuy (atual Rio das Velhas) descobriu um lugar onde o ouro de aluvião era encontrado em abundância, fundando ali o Arraial dos Rapôsos. Desde então a história de Raposos é contada pela atividade aurífera. Os ingleses da St. Jonh D'El Rey Mining Co. (primeira companhia aurífera do mundo e atual Anglo Gold “Laxante”) chegaram lá por volta de 1832. Mas a atividade aurífera baseada na exploração do ouro de aluvião entra em declínio na segunda metade do século XIX, restando o monopólio da exploração para a St. Jonh D'El Rey Mining Co, única a ter maquinário suficiente para explorar ouro dentro das montanhas. Um fato que poucos sabem é que a famosa Mina de Morro Velho (maior mina de ouro já encontrada no Brasil) fica em Raposos, e não em Nova Lima. A estrada para Raposos é uma ligação da Morro Velho até BH, ela acaba na mina. E por falar em coincidências, o Cemitério de Raposos está ao lado da Morro Velho. Mas isso nada tem de simples coincidência.
A mina foi exaurida em 1 de maio de 1998. Ainda falam em volta da exploração da Morro Velho, mas a quantidade de ouro ali localizada é tão ínfima que não vale o gasto. Mas Morro Velho não foi sem deixar muito sofrimento e dor. O senso comum vangloria a mineração como caminho de “progresso e desenvolvimento”, ligando imediatamente uma coisa à outra. Nada mais positivista. Ao analisarmos a mineração vemos que seus benefícios foram pouquíssimos perto dos prejuízos. A silicose, descoberta a pouco tempo por mim - o que pode nos levar a questionar o papel dos meios de comunicação no capitalismo – é um mau comum na cidade. Descrita como “doença do pó”, está intimamente ligada à história da cidade. No brasão da cidade há um lenço roxo representando as viúvas da silicose. E realmente foram gerações dizimadas pelo mau.
Um dia em sala de aula, estava falando sobre a mineração quando tive a idéia de perguntar à sala se conheciam alguém que havia contraído a doença, com o intuito de entrevistar a pessoa para um documentário que eu e outros amigos queremos produzir. A respota foi aterradora, todos conheciam e tinham vários parentes que haviam contraído silicose. Pais, avôs, tios, amigos, a grande maioria já mortos. E o quadro se repetiu em todas as salas e em outros locais. A cidade contraiu silicose. Indignação é o mínimo que posso dizer ter sentido. Agora que o ouro se foi a cidade foi relegada ao esquecimento, um arraial esquecido nos vales minerais. Será esse o destino em maiores proporções da região das Minas de Minas Gerais? Seremos apenas esqueletos de um passado marcado pela ostentação e luxúria? Nos tornaremos apenas mais um ponto turístico? Algo para se ver e esquecer?
E em relação a minha gratidão à coincidência se justifica por agora poder entender, inclusive empiricamente, cada vez mais a fundo a mineração capitalista e sua relação com nossos povos, me encontro exatamente onde quero. Assim posso junto aos maiores afetados lutar contra os caminhos tomados por essa mineração capitalista (capitalista porque os contornos que a mineração assume atualmente são determinados pelo modo de produção capitalista e seu mercado, não sendo a única forma de “minerar”).
E esse espírito americano das contradições (tão bem captado por Fernando Brant e Milton Nascimento), da vida e morte, da pobreza e da riqueza que caminham tão juntas, sendo uma geradora da outra, das luzes amarelas da cidade colonial, do sabor de chocolate e do corpo negro, esse coração americano, pode facilmente ser visto e sentido em Raposos, assim como em Ouro Preto, Lima, Havana, Cuzco...

3 comentários:

Lu Designer disse...

Nada acontece por acaso.

Bernardo disse...

Sr. Tádzio, talvez esse não seja o lugar ideal para postar esse comentário mas gostaria de trazer a tona mais uma discussão sobre alguns conceitos e soluções, quem sabe. Sempre tive um problema com conceitos e suas definições. Esse problema vem melhorando com as aulas que venho tendo no momento que, mesmo não sendo voltadas para o campo social, posso me utilizar do aprendizado para esse fim. Gostaria de trazer a esse Blog dois deles: visão sistêmica e visâo analítica por acreditar que a aplicação dos mesmos pode gerar uma discussão benéfica para todos os envolvidos. Entendo como visão sistêmica o fato de enteder que para se chegar a um resultado final, temos uma série de processos interligados. Já a visão analítica, é muito usada no campo da Medicina e no sistema de ensino vigente hoje na maioria das escolas: trata de processos isolados e sempre se preocupa mais com os efeitos do que com sua causa. Também não concordo com a analogia "ensinar a pescar ao invés de dar o peixe", mas defendo uma visão sistêmica ao invés de uma visão analítica para resolver alguns problemas sociais do país. Primeiramente, acho que não devemos apenas tratar do efeito, acho que deveria ser adotada uma postura que vislumbrasse combater as causas dos problemas, tendo consciência que a fome, a miséria, a concentração de renda e outros problemas são partes de um processo que tem suas raízes plantadas na história. Tudo isso resultado de um processo de colonização extremamente voltado para a exploração. Com certeza não saberei citar algum tipo de solução, mas acredito que enquanto pensarmos em soluções que apenas combatem os efeitos das mazelas sociais não conseguiremos sair do lugar. Gostaria da sua opinião acerca do que foi dito nesse comentário.

Tádzio Peters Coelho disse...

Concordo plenamente. Provavelmente você deve estar se referindo a nossa discussão no gmail.
Sou familiarizado aos dois conceitos por você apresentados, e em termos marxistas seria a diferença estratégica de se avançar sobre a estrutura ou sobre a superestrutura. Farei, primairamente, uma breve explanação sobre o que são.
O que define uma sociedade é a forma que os homens se organizam para produzir seus bens materiais de mais variados tipos. Assim já existiram o modo de produção escravista, feudal, e hoje vivemos no capitalista. Essa é a estrutura. A superestrutura (aparelho jurídico, Estado, as instituições sociais em geral) é, em grande parte (saindo de tendências deterministas), resultado desta. Por isso para acabarmos com os problemas da pobreza, desigualdade social, etc causadas pelo capitalismo teríamos que transformar o modo de produção. Mas aqui é onde entra o que chamei em outros textos de "realismo conjuntural", isso é, não temos, hoje, a mobilização popular suficiente para chegarmos a esse objetivo. Dessa forma o trabalho de "conscientização" de classe é o mais oportuno no momento. Isso pode ser levado, por exemplo, através do nosso documentário, mostrando os efeitos da mineração em nossa população ao mesmo tempo que ligamos às suas causas.
Sobre os programas sociais atualmente realizados: devo dizer primeiramente que o Capitalismo não será colocado em questão por meios eleitorais, consequentemente, pelo Estado. Os vencedores das eleições na democracia burguesa são sempre as classes altas, visto que, dentre outras razões, essas classes dispõe de mais recursos e meios para vencer tais eleições. Além o Estado é um aparelho com caráter de classe, ele atua predominantemente (e não somente) a favor de uma classe. O único caso histórico em que o capitalismo começou a ser questionado por meio por um governo que venceu tais eleições foi no Chile com Salvador Allende, que acabou com o Palcio de la Moneda bombardeado e com a morte do eleito.
Então o fato de haver um programa que, de certa forma, amenize os problemas da fome, que tem um caráter emergencial, já são uma conquista.
Mas o fim da pobreza, da desigualdade social, miséria não passarão pelas vias tendenciosas do Estado burguês. E sim pela transfomação da estrutura do capitalismo.