sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A ESPERANÇA VERSUS A MENTIRA





Acordo num tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar
O cara me pede diploma, num tenho diploma, num pude estudar
Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá”.


Gabriel Pensador



Ao longo de nossas vidas nos deparamos com um longo conflito entre a esperança e o realismo. Criamos expectativas frente a desafios que podem exceder as reais chances ou não. É algo inerente ao ser humano, o sonhar com caminhos melhores. Isto é válido tanto para projetos coletivos quanto para individuais, e de certa forma é benéfico para nossa transformação e evolução.


O grande problema é quando tal esperança começa a ser usada como ideologia, isto é, como forma de sustentar a atual ordem social por meio de uma ilusão.


De alguns tempos pra cá, onde o principal objetivo é a expansão do capital, tudo se torna mercadoria, forma de auferir maior lucro. Inclusive estórias de ascensão social. A indústria do cinema, as biografias e outros meios de comunicação vendem estórias enlatadas de incríveis personagens reais, algumas vezes, e outros romanceados que conseguem transformar pra melhor suas vidas. Claro, é uma forma de movimentar estes mercados, mas não apenas isso. Tais estórias também perpetram o funcionamento do capitalismo. Vende-se a idéia, para toda uma classe social, de que é possível ascender socialmente, sem qualquer análise crítica das reais possibilidades. Obviamente, a ascensão social é possível se tivermos como marco de análise o indivíduo. É plausível que um operário, por meio de sua própria ação, consiga se tornar um rico empresário, apesar das reduzidas chances. Mas a ascensão social para toda uma classe é impossível. Uma sociedade capitalista necessita que, uma grande parte da população, venda sua mão de obra em troco de um salário, possibilitando a acumulação por parte da classe dominante, e ainda, carece de uma taxa de desemprego que pressione e barateie a mão de obra, captando e produzindo maiores lucros para a classe dominante, do contrário não é capitalista. Sendo assim, nos termos capitalistas, sempre haverá uma maioria que trabalha para uma minoria. Mas tal constatação deve ficar imersa nas entranhas da sociedade para que ela assim se mantenha. Visando tal objetivo, vende-se a idéia para o proletariado de que a ascensão social é possível, sem qualquer tipo análise crítica, sendo nossa condição social apenas uma questão de vontade e esforço próprio. Assim a culpa de não ter emprego é do próprio desempregado, que não se preparou bem para o mercado de trabalho, ou a pobreza é causada pela vagabundagem e comodidade do pobre. Por outro lado, a riqueza é causada pelo esforço e inteligência do rico, merecedor de suas benesses.


Assim, geração após geração, os indivíduos das classes baixas procuram “subir de vida”, sem constatar que a grande maioria deles ficará para trás, deixando a real transformação social como tarefa para o futuro, que pode não vir. A esperança se torna mercadoria vendida em troco de mentiras. Este é o limite onde a esperança é usada como forma de se manter a ordem social, onde o sonho é uma farsa que esconde um maquinário de exploração e concentração de renda. É, alguma coisa, realmente, está “fora da ordem”.



7 comentários:

Luzinha disse...

A educação no Brasil precisa amadurecer, mas não é do interesse da classe dominante que isso aconteça. Os alunos precisam mesmo abrir suas mentes, pensar mais para agir, porque representam o futuro e estão vivendo uma alienação imposta pela sociedade capitalista. O que deve ser passado para eles não são sentimentos de revolta, querendo destruir o material, a fim de mudar alguma coisa, porque isso não vai acontecer. Inquietação, questionamento e valores humanitários, isso que deve ser passado. Se nas escolas públicas, formarão futuros proletários, só o tempo dirá. Contudo, estarem ali se dedicando e buscando o conhecimento, já é um indício de que querem mais do que isso para suas vidas. E aqueles que conseguirem chegar ao “topo da pirâmide”, caso tenham aprendido valores de ética, poderão tomar providências para serem mais justos e menos hipócritas com os seus subordinados. A exploração pode ser amenizada se o empregador perceber que não se tratam de máquinas, mas de homens. Olhar no olho, conversar e conhecer cada um, suas famílias e dificuldades, tratar o ser humano com respeito e dignidade.
Para mim, cada ser humano é único, insubstituível. Não os enxergo divididos em grupos sociais, os vejo como pessoas com sentimentos, sonhos e desejos. Muitos destes sonhos estão relacionados à sociedade na qual estão inseridos, - voltados ao consumo - e outras vezes estão relacionados a valores humanitários - ajudar o próximo. Cada pessoa tem um sonho. O sonho não se limita a “subir de vida”. Existem sim, pessoas com renda menor que vivem felizes, desapegadas dos produtos tecnológicos ou de marca, que outras pessoas insistem em adquirir para sentirem-se com sua auto-estima elevada. A evolução pode ser interpretada de várias maneiras, depende de cada um. Para alguns existe a evolução espiritual: praticando o bem se consegue alcançar seu objetivo de vida. Para outros a evolução é ser aceito na sociedade hipócrita onde as pessoas só lhe dão valor por causa do seu status social e não porque se identificam com você, tratando-lhe com respeito e desejando-lhe o bem.

Fei disse...

O senhor esta com ódio em seu coração. Primeiramente, você se contradiz ao dizer sobre histórias de ascensão de um zé ninguem à riqueza, como se fosse alguma arte-manha do capitaslimo ou mera fantasia, mesmo achando possível na esfera individual. Ora, como você mesmo disse, o capitalismo precisa de o maximo de mão-de-obra para baratea-la e de pessoas que necessitam dos empregos (desempregados). Por que então "patrocinariam" histórias incentivando a ascensão do empregado? Não seria transformar uma mão-de-obra pontecial em, talvez, um concorrente? Vejo esses filmes, livros ou contos como uma forma de incentivar o empregado e até mesmo desempregados a não desistirem de "perseguir seus sonhos" ou apenas uma forma de aumentarem seu animo, talvez para mudar de vida ou melhorar sua capacidade no trabalho, nada mais que isso. Em segundo lugar, realmente é impossível uma ascensão de toda uma classe, visto que o ser humano é individualista por natureza e competitivo, não pensando no grupo, mas apenas nele próprio. Não acho que isso tem a ver com o capitalismo, pois seria assim em qualquer outro sistema economico (não considerando os imaginarios e loucos). Também acho que o senhor está mudando o objetivo de seu blog, que é a salvação das montanhas. Sem mais...

Tádzio Peters Coelho disse...

Vamos lá.
Primeiro que eu não estou sendo contraditório, visto que a grande maioria ficará para trás ao perseguirem estes "sonhos" de ascensão social, muitos tentam e poucos conseguem, por isso este é um mecanismo social perverso e eficaz para fazer a manutenção da atual ordem social, pois as classes baixas deixam a tarefa da transformação verdadeira que permita uma sociedade mais justa para o futuro. Então o sonho da realização material está ligada a interesses de classe, não só pela manutenção do atual sistema, mas também por incentivar o consumo das mercadorias, a realização da produção. O argumento do "medo" do capitalista em criar um concorrente é inválido visto que os ganhos para as classes altas são muito maiores que os riscos.

O "sonho" de melhores condições sociais para todos deve ser perseguido por todos, visando algum tipo de organização social diferente, visto que o capitalismo funciona como uma pirâmide, onde poucos se beneficiam do trabalho de muitos, impossibilitando a realização do ser humano como tal. O fato é que a mercadoria se beneficia dos sonhos e esperanças das pessoas para produzir lucro para uma minoria. Acho que estas esperanças devem ser melhor direcionadas.

Acho que o Fabrício está sendo muito pretensioso ao lidar com categorias totalmente abstratas e relativas, tais quais a natureza humana, dizendo
que é ela a raiz de nossos problemas e também que impossibilita sociedades mais justas. Aí é você quem se contradiz, visto que reconheceu o papel do desemprego no capitalismo (baratear mão de obra) e depois afirma ser o problema da questão uma suposta natureza ruim do ser humano. Acho que devemos trabalhar com categorias mais científicas, jogar com as cartas que temos, ao invés de mistificarmos a discussão. Discutir bom e ruim, além de ser extremamente relativo, não nos leva a lugar algum. Lembro, também, que existiram outras formas de organização social onde não haviam a fome e a miséria, portanto não sendo imaginários ou loucos, invalidando o argumento do gene ruim, isto é, o ser humano não carrega o gene da pobreza ou da miséria resultado de sua ganância "natural", isto é resultado da forma que nos organizamos, e não de uma suposta "maldade humana". e existem, e existiram, milhares de formas de se organnizar diferentes. Vide o seguinte estudo antropológico: http://ervadaninha.sarava.org/Marshall%20Sahlins%20-%20A%20primeira%20sociedade%20da%20afluencia.html

Em referência à crítica contínua sobre a desvirtuação do propósito do blog, que tem como objetivo PRINCIPAL discutir a mineração, não vejo, sinceramente, razão para não debater, também, outros temas, afinal qualquer limitação ao conhecimento é nociva, e discutir tais temas faz parte de uma crítica ao atual modo de organização social. Por isto a crítica é sem propósito.

Fei disse...

O senhor continua a mistificar as coisas. Apresentou uma teoria completamente tendenciosa ao relacionar "ascensão social" com realização material. Em nenhum momento foi dito que a realização pessoal é através de bens materiais. Nem ao menos esse conceito é apresentado nas hitórias e filmes sobre ascensão pessoal criticados por você, mesmo estando implicito que, ao se tornar rico, a pessoa poderá comprar bens materias. Obviamente, parte da "felicidade" das pessoas vem através de bens materias. Mas é, principalmente, a busca de uma qualidade de vida melhor (segurança, moradia, educação, saude, higiene). E essa busca, no mundo atual, vem atraves de esforço da pessoa, sem a ilusão de "é só querer que você pode" mas sim, o fato de se dedicar ao inves de reclamar e esperar que as coisas aconteçam, e essa é a verdadeira mensagem.

Com relação a ascensão da classe e de sociedades mais justas, o fato de isso não existir em vários países não é culpa do capitalismo em si, presumo eu. Você tem mais estudo do que eu sobre o assunto, mesmo assim acho que não é culpa de um sistema economico todos os problemas do mundo. Uma sociedade mais justa não quer dizer uma sociedade sem classes, e sim com pouco diferença entre elas. É fato que países ricos influenciam e "controlam" outros países, mas isso acontece pela necessidade de materia-prima, alimentos, assim como precisam de mao de obra e mercado consumidor. Mas creio eu que isso aconteceria com qualquer sistema economico ou politico, mesmo que em menor proporção.

Sobre a natureza humana, não tenho base teórica nem estudo com relação ao assunto, mas a figura humana é a mais relevante ao se estudar uma sociedade, que nada mais é que uma organização humana. Você diz que existiram sociedades que não havia fome e miséria, mas onde elas se encontram hoje? Se existem, provavelmente são pouco desenvolvidas e facilmente dominadas. E as que não existem, sucumbiram por outra sociedade atraves de interesses economicos e políticos originados por seres humanos ou por pensamentos ciêntificos desenvolvidos por, também, seres humanos.

Por isso o senhor precisa tirar esse ódio de seu coração. O mundo não irá mudar por causa de uma simples utopia, mas sim quando as pessoas, e eu digo todas, se conscientizarem que existe um mundo fora de suas próprias casa. E viva o Cruzeirão, o maior de Minas!!!!

Tádzio Peters Coelho disse...

Não irei me estender muito.
Quem disse que a ascensão social está ligada a uma realização material fui eu, este conceito se chama fetiche da mercadoria, é o feitiço que a mercadoria exerce sobre as pessoas, no qual passa a idéia de que só nos realizamos por meio do consumo das mercadorias. Isto é, também, um mecanismo fundamental para o funcionamento do Capitalismo, mas este feitiço da mercadoria esconde a exploração envolvida na produção.

Quanto a uma sociedade "menos" desigual, só seria possível transcendendo o modo de produção capitalista, pois nela para se concentrar a riqueza é necessário pobreza (desemprego), força de trabalho explorada (vide o texto do blog sobre os 3 principais problemas decorrentes do capitalismo), isto é, a pobreza e a riqueza são lados diferentes da mesma moeda, uma complementando a outra na relação entre capital e trabalho, não estão separadas. Tudo isto impossibilita a teoria do Capitalismo mais humano e menos selvagem, isto sim é demasiadamente utópico.

Na verdade vejo estas suas questões como resultado do atual contexto histórico, é, inclusive, uma corrente teórica sociológica
chamada teoria do fim da História, que foi, em grande parte, criada pelo fracasso dos projetos socialistas no leste europeu, e resulta na apolitização e desilusão da atual geração, para estes não existem mais soluções e devemos nos contentar com a atual forma de organização social, que seria a única, causada pela natureza humana. Isto é um tipo de ideologia, por que esconde as reais causas de nossos problemas socias. Há algum tempo queria escrever sobre o tema e é o que farei.

Quanto às outras sociedades, que realmente do ponto de vista técnico são primitivas, mas mesmo assim, não conviviam com a morte de parte considerável de sua população por fome. E nós que podemos produzir comida para várias vezes a atual população mundial, por que não conseguimos se outras sociedades, como você disse, menos complexas, conseguiram? É uma forma de produzirmos, que não é a única. Podemos mudar, mas é necessário um contexto histórico favorável, que não é o de hoje em dia. Mas a história e a sociedade são movimento, e nós, agora uma opinião muito mais pessoal, seres humano somos muito mais que isto.

Tádzio Peters Coelho disse...

Ah! E o mais importante, não cite mais este timeco, como se chama mesmo, Ipiranga?

Tádzio Peters Coelho disse...

Mas o mais angustiante é ver que a ideologia da ascensão social diz a todos que é possível, só depende de seu próprio esforço, sem levar em conta as diferenciadas condições sociais, econômicas e culturais que predeterminam o fracasso para a grande maioria dos integrantes das classes baixas. É como uma grande peneira, uma maioria esmagadora, por mais que se esforce, ficará para trás. "Se esforce e você consegue, depende só de você, não tente mudar a peneira, ela não é problema". E a vida destas pessoas passa e seus filhos farão a mesma coisa, e seus netos, e bisnetos...