sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O GOLPE DE ESTADO “BRANCO”



Documentário sobre os 100 dias de ditadura em Honduras:




Recentemente, assistindo ao Jornal Nacional, algo que faço algumas vezes para averiguar o que a elite brasileira quer que o povo pense, presenciei televisivamente um dos discursos mais tacanhos e mentirosos dos últimos tempos. Arnaldo Jabor, com todo seu pretensioso ar de intelectual colonial, papagaio de madame, discursava sobre a situação em Honduras. Uso o termo discurso porque assumia claramente uma posição política, a do editorial do conservador jornal, ao mesmo tempo em que tentava passar uma neutralidade inexistente. Dizia ele, o golpe de Estado em Honduras é um golpe “branco”, pois intentava reinstalar a democracia no país centro americano. Como eu já sabia, seu discurso é sempre perfumado por esse ar de pseudo-intelectualidade, que esconde na densa neblina, um discurso profundamente fascista e elitista. Ao mesmo tempo em que o ouvia ia desmascarando sua armadilha verbal. Mas o cronista da Daslu não se reteve ao campo da retórica, onde a língua venenosa do locutor nos engana, também chegou a faltar com a verdade. Disse o sujeitinho que a nova constituição possibilitava a reeleição de Manuel Zelaya, o “ditador eleito democraticamente”, segundo as palavras do papagaio, seja lá o que isso quer dizer. O que ele não informou, ou não quis, é que de acordo com a nova constituição Zelaya não poderia ser reeleito, porque a reeleição só funcionaria depois de uma primeira eleição da qual Zelaya não poderia participar. A atual constituição, de 1982, foi elaborada um pouco antes dos militares entregarem o poder estatal aos civis, dando fim a uma intensa ditadura que serviu como base se operações militares dos EUA para reprimir o governo sandinista na Nicarágua. Isto já demonstra o quão limitada é, para os interesses do povo, a atual constituição. Além do que a nova constituição iria passar por referendo popular. Qual é o problema de deixar o povo decidir os rumos a serem tomados, afinal, não se trata de uma democracia? O poder, teoricamente, não é do povo? Ou não existe democracia? O poder político pode ser igualmente repartido numa sociedade que carrega em seu ventre a desigualdade econômica? Fica a interrogação.
A Rede Globo e os outros meios de comunicação continuam com sua linguagem enganadora. Chamam os golpistas de governo interino.
Continua Jabor dizendo que o golpe não foi feito como antigamente, como nas outras ditaduras militares, que a Suprema Corte o apoiou assim como a Igreja. Realmente, seqüestrar o atual presidente e levá-lo, ainda de pijamas, junto com sua família para outro país me parece um tanto quanto democrático. Acho que ele deveria estudar melhor os processos ditatoriais na América Latina, ou então parar de mentir, visto que presenciou pessoalmente a ditadura militar no Brasil. E ainda chama o golpe de “golpe democrático”, quanto rigor conceitual papagaio de madame!
O suposto envolvimento de Chávez em todos os processos políticos existentes surge como figura de retórica muito útil para deixar as populações, mal informadas, com medo e à deriva da compreensão da realidade social. O envolvimento de Chávez sempre surge como retórica que deslegitima qualquer processo político, discurso que passa a ser utilizado pela elite que tenta evitar uma possível ditadura “chavista” em seus países. Isso pode ser um ótimo material para uma estória de humor. Me parece ser ele Deus ou algo parecido, e não chefe do executivo venezuelano. Quanto poder tem a Venezuela não? Já podemos falar em um mundo bipolar: Venezuela contra a rapa.
Os golpistas aproveitam o Estado de Sítio, declarado em razão das intensas manifestações populares à favor de Zelaya, para eliminar fisicamente seus opositores políticos (líderes comunitários, sindicalistas, movimentos sócias, etc) limitando os direitos civis. Denúncias de abusos chegam de todos os lados, centenas são os pedidos de ajuda vindos de Honduras referentes à violação dos direitos humanos.
Eleições decorrentes de um golpe de Estado? Processo eleitoral com um Estado de Sítio em vigor, onde a população não pode nem ao menos se reunir em assembléia? Ah, é contradição demais pro meu debilitado intelecto compreender. É um golpe de estado que instaura uma ditadura disfarçado de ato democrático. Por meio de eleições “livres” tentarão colocar o candidato preferido de Washington. Já o Estado norte americano mostra sua dualidade de poder, entre o Executivo e o Pentágono, que parece ter orquestrado o golpe em Honduras. Aliás, boa parte do Senado americano já sinaliza apoiar o golpe.
E a História nos repete como farsa e tragédia.

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