quinta-feira, 29 de outubro de 2009

UM DIA DE REFLEXÕES E DEBATES MINERÁRIOS


"Que as classes dominantes tremam à idéia de uma revolução comunista ! Os proletários nada têm a perder nela a não ser suas cadeias. Têm um mundo a ganhar.
Proletários de todos os países, uni-vos!"

Karl Marx no fim de "O Manifesto do Partido Comunista"

Esta semana, recebi de meu compadre de debates marxistas e amigo de infância Henrique Napoleão, um email a respeito de um evento com o título “O Marco Regulatório da Mineração” organizado pelo Instituto dos Adêvogados de Minas Gerais. Explicava-me, Henrique, que seria uma palestra com a perspectiva do grande capital, seja ele nacional ou estrangeiro, no qual eu poderia evidenciar o ponto de vista do empresariado da área além de ser livre de taxa de inscrição. Pensei eu: “ora, por que não? Será interessante”. Pois bem, fui eu hoje de manhã a referida palestra no Automóvel Clube, o qual eu não fazia idéia do que era. Depois descobri que é mais uma dessas organizações que os ricos fazem para compor seu tecido social de relações econômicas, culturais e sociais. Chegando lá, no edifício histórico localizado no centro de BH, me deparei com uma recepção de gala. Atendentes e garçons me receberam com toda pompa que estes eventos das altas classes têm. Um pouco envergonhado pela situação, claramente de estranhamento social pela chegada em um meio completamente diferente do meu, sentei-me a uma das mesas, as quais tinham os mais variados tipos de comida. Pensei comigo: “pela comida ao menos darei prejuízo ao alto capital minerário”. Satisfeito pela afronta ao capitalismo, comecei a reparar nos tipos presentes. Eram, obviamente, proprietários de mineradoras misturados a alguns altos funcionários, como engenheiros e advogados. Um desses, um advogado de uma mineradora que não me cabe dizer o nome, muito simpaticamente, sentou ao meu lado iniciando uma conversa. Apesar do ar de simpatia do sujeito, a conversa não durou muito, pois me irritam esses tipos que usam as pessoas para fazerem “contatos”, assim, mercantilizando as relações sociais. Fotos para colunas sociais eram tiradas, quando um dos palestrantes, professor e organizador do evento, veio tirar uma foto comigo. Mal sabia ele o aborrecimento que eu iria lhe causar.
Após alguns momentos de espera e de gula, deu-se início ao evento com a chegada do deputado federal Leonardo Quintão. O próprio iniciou a palestra sendo seguido pelo professor de Direito Minerário supracitado, o qual também não me cabe dizer o nome. O professor, logicamente, defendeu o receituário neoliberal da não-intervenção estatal, além da maximização dos lucros das mineradoras, tudo isso encoberto por uma suposta rede de “benefícios sociais”, termo utilizado pelo professor e que se instalou em minha mente, dizendo que são conseqüências da atividade mineradora para “nossos irmãos”, os pobres, no único momento, ao longo de sua interminável fala, em que citou a questão social. Em seguida deu-se início ao espaço reservado para perguntas. As perguntas sempre eram precedidas por uma apresentação de cargos e posses simbólicas, o que o sociólogo Pierre Bourdieu chama de “capital simbólico”, ou o que Roberto DaMatta classificaria pela interrogativa tupiniquim do “você sabe com quem está falando?”.
Após algumas intervenções dos presentes resolvi também participar, tendo em vista o antro de conservadorismo e alienação sobre a realidade social que se mostrava a minha frente. Iniciei minha fala com meu nome (o qual ninguém entendeu, não sei o porquê) e me ficou na ponta da língua me caracterizar como um “Zé-ninguém”, mas apelei para minha diplomacia mineira, visto que já de cara seria visto como um chato, e omiti a posição social. Os perguntei, mais ou menos com estas palavras, se bem me lembro: “quais são os benefícios sociais que a atividade mineradora traz às populações locais? Visto que ela é, essencialmente, uma atividade concentradora de renda e não distribuidora, além de produzir poucos empregos comparada a outras atividades econômicas. Vide o exemplo do baixíssimo IDH dos municípios mineradores, além de Raposos, uma cidade que definha por silicose, doença decorrente da mineração. Quais são os benefícios sociais? Qual é este obscuro e abstrato mecanismo econômico que o senhor cita?”. Bem resumido mas bem incisivo, obviamente que não me declarei desta forma prolixa e certeira, mas o sentido era este. O professor, já bem exaltado pela pergunta, de cara disse que “discordava” de mim. E reafirmou essa afirmativa. Logo começou a me citar uma série de dados, todos referentes a questões ambientais, desviando o foco de minha pergunta. Mesmo que um chimpanzé possa ser capaz de decorar dados e ações, ouvi atentamente ao aborrecido professor. Seguiu culpando outras atividades econômicas pela degradação ambiental, citando uma pesquisa que prova que 60% dos danos ambientais de MG são causados pela agropecuária. Nesta hora tive vontade de voltar à infância e perguntá-lo:
- Iokiko?
- Iokiko?- Repetiria ele.
- Iokiko tenho com isso? A pergunta não foi essa.
Mas a cena cômica- não de hipocrisia, como foi a da resposta do professor- estava por vir. Um senhor se levantou mais exaltado ainda que o professor, dizendo ser engenheiro, e que tinha muito orgulho de ser um “destruidor de montanhas” há 40 anos, sim, porque seria ele o responsável por tudo isso que temos aqui (apontou para a janela, expondo o que seria BH), e que quando começou na carreira foi ameaçado “com um revólver” pelos comunistas por estar vinculado a uma multinacional norte americana. Neste momento, não consegui evitar o riso, apesar de todo respeito que tenho pelos mais velhos e por todos com os quais debato. Mas a situação foi por demais caricatural. Além da evidente megalomania do engenheiro, “eu fiz tudo isso” (e não o operário), havia uma série de preconceitos envolvidos com o estereótipo do que é a esquerda ou os comunistas, sendo em que em momento nenhum disse ser um, ou ao menos utilizar o contexto teórico da esquerda, me tornando um “comunista” apenas pelo fato de querer beneficiar socialmente a população local. Lembrei de um amigo meu, o Fabrício (que sempre comenta o blog), que me chama de “salvador das montanhas”. Ele me intitula assim por ironia e sarcasmo. Já o senhor engenheiro não participa do mesmo ponto de vista. Para ele, dá na mesma se é questão ambiental ou social, é tudo “enchimento de saco de comunista” (ele não falou isso, mas provavelmente pensou, agora sou eu quem faz uso de preconceitos). Não citei nada sobre montanhas ou meio ambiente, mas tudo bem. Acho que em certa altura da vida a pessoa quer buscar um sentido para tudo o que fez, além de querer deixar algum tipo de legado, pra quem sabe botarem seu nome em uma rua ou escola.
Abafaram a discussão e logo se acabou com o debate para dar seguimento ao “coroamento” do novo Comitê de Mineração da Câmara de Comércio e blá blá blá. Pra terminar minha participação, peguei, humildemente, um bolinho de cenoura com chocolate e fui embora.
Depois andando pelo centro de BH fui vendo os benefícios sociais citados pelos palestrantes. Logo me deparei com uma pessoa mexendo lixo, “aí está a distribuição de renda” pensei eu. Outro pedindo comida e mais outro dormindo no chão. No hospital público, ao qual me direcionei, vi milhares de caras dos “benefícios sociais” e da “distribuição de renda” ao longo de filas intermináveis. Senhores donos de mineradoras e políticos envolvidos, aproveitem seus eventos chiques e suas vidas hipócritas, pois serão estes “benefícios sociais” que se voltarão contra vocês.

Um comentário:

fabricio disse...

Facel q oc devia ter soltado a famosa frase pro engenheiro: cala a boca ai sô!!!
PS: concordo com tudo q oc escreveu, pela primeira vez...