sábado, 12 de dezembro de 2009

A SILICOSE E SEU GÉRSON, SEU ANTÔNIO, SEU EFIGÊNIO...




Como a maioria dos escassos, mas muito valiosos, leitores me conhece pessoalmente sabem que trabalho como professor de sociologia (“mas dar aula é trabalho?” interrogaria meu grande amigo, Jandirão), ou como diria Rodolfo, aluno do Dom Cirillo, “um proletário do magistério”. Bom, neste último bimestre passei aos alunos do Dom Cirilo - escola da cidade de Raposos - um trabalho que consistiria em entrevistar uma pessoa que tenha a doença silicose. Muitos surpresos com a nova palavra, confundida algumas vezes com silicone, gostaram da idéia visto a facilidade que eles têm para lidar com os novos tipos de mídia como filmagens, datas show (deve ser assim que escreve no plural) e outras engenhocas mais as quais não domino. Mas alguém atento me perguntaria:


- O que tem a silicose, uma doença, por isso matéria da Biologia, a ver com Sociologia?


A resposta é muito simples, além da explicação biológica para a doença existe uma explicação sociológica para ela. Sim, porque existem condições sociais que favorecem a incidência da doença. E que condições são estas? Todas aquelas encontradas no contexto social de Raposos. Para entendê-las, primeiro, voltemos no passado de Raposos. Basicamente, é uma cidade que nasceu em razão da mineração, quando encontraram no século XVII, nos leitos do Rio das Velhas, o ouro de aluvião. Este de fácil extração logo acabou junto com o ciclo do ouro mineiro. Já no século XIX, a inglesa Mineração Morro Velho constatou o enorme potencial das montanhas auríferas que circundam a região. Muitos diriam que apenas o ouro já é o suficiente para a exploração. Mas não, o que foi encontrado ali que poderia ser fonte de lucro não era apenas o ouro, mas também, e principalmente, a população local. Porque o ouro não é explorado, e sim extraído, quem ou o que é explorado é o ser humano. E naquela região encontraram todas as condições ideais para o “empreendimento”, o ouro e a população miserável, que exerce qualquer tipo de trabalho em busca de sobrevivência. O trabalho nas minas subterrâneas é reconhecidamente um dos mais duros e extenuantes do mundo. Assim jogaram-se os homens-instrumento nas veias da montanha por turnos de 12 horas, sem ao menos dar as mínimas condições de trabalho, como equipamentos de proteção, uma máscara, por exemplo, pois, claro, limitariam os lucros. Assim, os instrumentos de proteção, caso usados, eram cobrados no salário do trabalhador, aumentando a taxa de mais-valia. Além do quê essa gente não merece o esforço. Disse um entrevistado, Seu Arsênio: “Era proibido usar luvas porque os chefes alegavam que atrasaria o processo de produção”. Nada mais taylorista ou fordista.


A silicose surge com a inalação do pó da sílica, muito freqüente em minas subterrâneas. Uma relação de exploração entre classes que envolve, também, diferentes países, numa relação de troca desigual de mercadorias efetivada numa economia mundial capitalista, esta é a explicação sociológica para a silicose.


Mas os efeitos disso tudo não ficam apenas na sociologia, eles são visíveis, ou então sensíveis. Inúmeras foram as vezes que vi em Raposos pessoas com dificuldade de se locomover por causa da limitação respiratória, sintoma dos silicóticos. Esta última sexta-feira me chega a notícia de que um senhor conhecido morreu por complicações decorrentes da silicose. O passado ainda cobra seu preço.


A grande maioria dos alunos não precisou ir longe para entrevistar um silicótico, encontraram em sua própria família. Aconteceram inúmeras casos de alunos que nem ao menos sabiam que seu avô ou pai tinha silicose. Obviamente, a culpa não é deles, afinal, vivem numa sociedade do espetáculo e do consumo, que nos mantém numa aparência social, terra das constatações rasas e imediatas, onde nos vemos alienados das discussões sobre os reais problemas sociais, sempre escondidos nas entranhas do capital. É até mesmo uma forma de naturalizar os nossos problemas, como se na verdade eles não fossem problemas e que sempre estiveram por aí, por isso, a impossibilidade de serem vencidos.


O supracitado Rodolfo, como rapaz inteligente e curioso que é, conversando com um ex-trabalhador da Morro Velho, notou que o senhor via a Mina como um monstro, que engoliu e ceifou a vida de vários de seus amigos. Seu Arsênio, também já citado, disse ter arriscado a própria vida tentando retirar o corpo de um amigo morto num desmoronamento.


É interessante notar em algumas impressões dos ex-trabalhadores da antiga Morro Velho que vêm de encontro com explicações sociológicas e econômicas. Por exemplo, Seu Antônio, avô de um dos alunos, que foi entrevistado em sala de aula, dizendo que “desde 1973 Raposos não mudou nada”, isto é, desde que ele começou a trabalhar na mineração. Na mesma linha de pensamento, Seu Efigênio concluiu que a mineração deveria “trazer mais benefícios para a cidade”. Ambos depoimentos vão na direção da argumentação de que a mineração é concentradora de renda e que não serve como modelo desenvolvimento social para as regiões mineradoras, sempre tão dependentes dos interesses alheios.


Ainda sobre as entrevistas, podemos averiguar um denominador comum. Foram oito perguntas do professor e mais oito dos alunos. Uma delas era esta:


Quem você acha ser o maior beneficiado com as riquezas produzidas pela atividade mineradora?


E a resposta era sempre a mesma: o dono da mineradora, a mineradora ou os acionistas da mineradora. E nunca o trabalhador ou a população de Raposos.


Na atual conjuntura, a silicose parece ser algo vencido, devido às leis trabalhistas. Mas a mineração continua trazendo inúmeros malefícios sejam eles sociais, econômicos, ambientais ou culturais.


Enfim, o trabalho tinha como finalidade atentar aos alunos os seus próprios problemas, pois a resolução destes só será possível quando o atingido tiver a consciência de que ele é o maior prejudicado na situação, e que a mudança só será possível se for levada pelas suas próprias mãos. Acho que, dentro deste objetivo, o trabalho teve sucesso. Os alunos começaram a desnaturalizar um processo que é social, sendo assim, causado pelas estruturas sociais humanas, e capaz de ser transformado pelos próprios seres humanos. Mas a verdadeira transformação, espero eu, ainda está por vir.


Um comentário:

Bernardo disse...

Foi uma bela sacada propor aos alunos esse trabalho. Muito mais até do que a idéia de produzir o documentário, que pode servir futuramente para complementar esse tipo de discussão.