quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

SOBRE A LIBERDADE DE PENSAMENTO E DE OPÇÃO POLÍTICA



Quero através do blog fazer uma denúncia. Escolho o blog como meio para tal fim muito mais por falta de opções do que pela fartura delas. Aliás, é sobre escolhas que falaremos aqui.
Está escrito no quinto artigo da Constituição Federal de 1988:

VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;

Linhas bem traçadas, belas palavras, leis e costumes, incisos, são todas elas aparências ou têm efetividade concreta? Realmente, elas são de suma importância para a transformação social e para a boa convivência. Porém, a relação entre a realidade e as leis não é tão simples assim, não há exatamente uma proximidade entre as duas, ao contrário, muitas vezes a relação é contraditória. Em casos mais extremos, as leis vem mesmo para esconder uma realidade a falseando com nobres palavras, mesmo que a realidade sempre surja à tona. Mas não é sobre ilusões jurídicas que quero falar aqui.
Quero aqui relatar algo acontecido comigo, recentemente. Não é a primeira vez e provavelmente não será a última. Por esses dias, participei da seleção de um das principais escolas particulares do Rio de Janeiro, a qual não carece de nomear. Após ser classificado na prova teórica, fiz a tal da “aula-teste”. O tema era “Fato Social em Durkheim”, aula a qual desenvolvi calmamente, visto minha experiência com o ensino médio. Após uns dez minutos de aula, fui interrompido por meus dois “avaliadores”, que me chamaram para ser entrevistado. Primeiro me fizeram uma pergunta sobre disponibilidade de tempo, tendo em vista que sou mestrando. Daí pra frente a conversa seguiu mais ou menos nessa direção:

Avaliadora 1 (a única que falou, o outro se mantinha numa espécie de transe desinteressado do mundo terreno): Estou vendo aqui que você têm vários cursos sobre estudos da pobreza e desigualdade social.

Tádzio (que nome bonito!!): É verdade.

A 1: Então você faz parte de algum partido político (quase que pulando da cadeira pra cima de mim)?

Tádzio (pego de surpresa pela pergunta e querendo ser sincero): Atualmente não, mas quando era mais jovem fui do PSTU. Nos dias de hoje, tenho uma militância mais ligada à área ambiental.

A 1 (novamente incisiva): Então você é de alguma Ong?

T: Não, mas atuo, algumas vezes, junto a elas.

A1: Como?

T: Numa área mais acadêmica, em combate aos problemas trazidos pela mineração em minha terra.

A1: Você dá base para estes movimentos então?

T: Isso eu já não sei. Porém, venho tentando desenvolver um documentário na minha terra sobre o assunto.

Como podemos ver, o assunto da entrevista se resumiu à minha militância e às minhas tendências políticas. Tentei ser sincero já que não há o que esconder, isso é, não aceito esconder minhas convicções políticas pois muitos morreram por elas para que hoje eu possa mostrar de mente aberta tais pensamentos. Me parece um tanto inoportuno tais questionamentos. Seria mais ou menos como perguntar:

Você é católico? Protestante?
É homossexual?

Compreendo que meus interrogadores (ou a interrogadora) como diretores de uma escola particular estão preocupados com a mobilização dos professores, greves, sindicatos, e um professor politizado, ou pior ainda, “comunista”, é um elemento de alto risco. Imagino que seja esse o encadeamento de seus pensamentos.
Triste é perceber que o elemento de meu curriculum que “denunciou” o meu grande mal é o fato de pesquisar a pobreza e desigualdade social. Sempre busquei meios para acabar com estes problemas sociais, e isso parece ser, para muitos, o problema em si. A despolitização segue seu curso. Esse é o mundo onde o Bope é idolatrado, o Bolsa-Família é um erro, o Tiririca é a manifestação do mal, e onde qualquer loira meio burra e meio bonita que aparece na TV se torna publicamente mais importante que um grande escritor brasileiro.
A tolice não tem fim, o pensamento de esquerda é visto pelo senso comum como uma forma social totalitária que massacra o indivíduo e a liberdade de pensamento. Aqui podemos ver como a forma econômica capitalista, traduzida em gerenciamento (diretores), corta aqueles que possam surgir como perigo para a sua acumulação. Porém, é justamente no pensamento de esquerda que encontramos a fonte para a total realização intelectual dos seres humanos. É por meio dele que podemos compreender nosso mundo e passar a transformá-lo, sendo assim, a fonte da redenção humana. É também a fonte- em suas varias vertentes- onde poderemos conquistar o mais nobre de nossos objetivos: a erradicação da miséria, pobreza e desigualdade social. Aí está sua grande importância no ensino médio.
Como já disse, não é a primeira vez que enfrento esse tipo de problema, e nem é a primeira vez que isso acontece a alguém em uma entrevista de emprego, e nem será a última. Também esclareço que ainda não sei (enquanto escrevo este texto) o resultado da seleção. Porém, não me surpreenderei se me disserem que “não me encaixo no perfil da escola”. Me arrependo, um pouco, de ter sido tão passivo com minha entrevistadora. Prometo que da próxima vez esqueço minha diplomacia mineira e chuto o balde!

3 comentários:

Inglês e Cultura disse...

Tádzio,

sua militância é legítima e admirável. Que bom que existem pessoas tão jovens e interessantes como vc! Que bom que suas ideias não são da maioria e que bom poder ler seu blog! Só tenho a lhe congratular...
Se vc me permite compartilhar uma experiência semelhante, uma vez em BH, eu também me senti assim...
Em um "treinamento" de uma escola, que também não cabe o nome agora, me perguntaram como que eu gostaria de ser tratada quando eu chego em um restaurante. Isso foi parte de uma dinâmica de grupo onde várias pessoas, dentre as quais eu estava, ainda estavam sendo avaliadas.O objetivo depois de respondermos por escrito, era compartilhar as respostas em grupo oralmente. A moral era que todos gostariam de ser bem tratados, alguns até, disseram bem servidos, bajulados, etc... e era assim que deveríamos tratar nossos alunos.
Ficou claro para mim, com essa pergunta, que o trabalho naquela escola passaria muito longe do que realmente deveria ser educação - mesmo tratando-se de um curso de inglês...
Ali mesmo eu percebi que, se professora naquela instituição, eu deveria tratar meus alunos como clientes...
E a minha aversão, na época, aos EUA? E as disciplinas cursadas na licenciatura que me instruíram sobre o que é educação de verdade?
Quer saber o fim desta história?
Eu fui aprovada. Chegaram a me contratar. Mas ao perceber que eu havia virado funcionária de uma empresa - uma grande empresa por sinal, na época, com duas semanas de trabalho eu me demiti.
E, por incrível que pareça, até hoje, não me arrependo. Desde então, trabalho em escolas públicas e penso mil vezes, quando as finanças apertam, quanto custa minha liberdade. Minha liberdade de expressão.
Parabéns pela coragem de se expor, de ser vc mesmo. Adoro isso.
Kaciana.

Tádzio Peters Coelho disse...

Olá Kaciana!
O impressionante é que muito se fala de liberdade, mas é exatamente em pequenos confrontos do nosso cotidiano que ela é realmente cerceada, e, em geral, as pessoas se omitem. É a manifestação destas formas econômicas em nosso dia-a-dia que nos limitam e condicionam.
Muito obrigado por dividir suas experiências conosco! Espero que continue participando.

Inglês e Cultura disse...

Já que vc me deu as boas-vindas...

Mais uma vez vc tem toda razão quando diz: "É a manifestação destas formas econômicas em nosso dia-a-dia que nos limitam e condicionam."
Essa frase me fez lembrar de alguém, que não me lembro quem, que ouvi em uma entrevista dizer sobre o comportamento que temos quando "interagimos" com os operadores eletrônicos...
Depois de um tempo, ou às vezes, desde o primeiro contato com essas máquinas, nós passamos a responder, a falar como elas com elas, porque assim elas nos exigem e só assim seremos atendidos. Vc já teve que falar com uma "secretária" da Oi?
Não é verdade?
Como vc disse, somos condicionados a interagir e a agir com e como máquinas... e às vezes queremos simplesmente uma informação ou a solução para uma questão que desconhecemos...
E aí pergunto: é esse o preço que pagamos pelo progresso? Se é que podemos chamar isso de progresso...
Admiro sua coragem. Quando paro e penso nessas coisas, tenho a sensação de que posso enlouquecer.