domingo, 30 de janeiro de 2011

A SÍNTESE DE UMA GERAÇÃO



Você que é assíduo leitor desse pouco elaborado blog deve estar esperando deste texto mais uma confluência de palavras e conceitos sociológicos e econômicos. No entanto, não será o caso. Tentarei trilhar outro caminho mais literal, mesmo que meu intelecto seja limitado nesse sentido. Tentarei fazer isso não por vaidade, mas por achar que é a melhor forma de descrever o que quero. Quiçá seja muito mais um relato do que outa coisa qualquer. Por isso, narrarei meu domingo de hoje.
Após muita festa de sábado, regada à drinks com frutas típicas do cerrado mineiro, chegou meu domingão. Almoço de aniversário de minha amiga Sabrina, e após isso muito calor! O Rio de Janeiro vem pegando fogo nessa época. Lá pelas sete da noite, que de noite não tinha nada com o sol à pino, resolvi ir-me ao ensaio da Vila Isabel. Escolhi essa como minha escola de samba preferida, mesmo que goste muito da Salgueiro, Mangueira e Unidos da Tijuca, mas morei algum tempo em Vila Isabel e sou grande frequentador de seus bares. Após ver o jogo entre Vasco e Flamengo (que diga-se de passagem, estão muito mal, Fluzão e Fogão são os favoritos para o campeonato carioca, e o América-MG dá goleada em todos eles) fiquei no folclórico bar “Petisco da Vila” a tomar meus copos. O paciente leitor deve estar se perguntando: mas você foi sozinho, Tádzio Peters Coelho? Sim, adoro ir aos bares sozinho e ficar pensando nas coisices da vida. Claro, convidei minha grande amiga venezuelana Érika, porém esta estava muito melhor entretida na praia, óbvio. Então estava eu lá a pensar no tanto que a vida é boa com esse mineiro bobo. Eis que então surge uma grande figura, literalmente, chamada “Silvão”. Uma figuraça, dessas que se conhece apenas algumas vezes ao longo da vida. Pensou que eu estava triste e logo se aprochegou com sua prosa amigável (repare que escolhi a palavra prosa ao invés de conversa). Do alto de seus dois metros, e sessenta e três anos de idade, Silvão chega com a camisa do bloco de carnaval de Vila Isabel, com sua boemia carioca, e logo me chama pra um cerveja. Disse que apesar de paulista, era carioca. Logo o defini como o paulista mais carioca de todos. A primeira coisa que Silvão fez, sem qualquer cerimônia, foi me apresentar a todos seus amigos, uma espécie de velha guarda da Vila Isabel e Mangueira. Todos muito simpáticos e com seu jeito carioca espontâneo de ser, logo me zoaram, por meu sotaque de caipira, e me convidaram a sentar e tomar cerveja com eles, todos muito genuínos– perceba este adjetivo pois ele será fundamental para compreender minha narrativa. Pois bem, voltamos ao balcão onde eu estava e ficamos a prosear. Silvão foi diretor da Mangueira por muito tempo, em alguns anos fez a coreografia do casal principal da escola, foi jogador de futebol em São Paulo, professor de Educação Física e trabalhou no Bradesco muitos anos. Sempre muito simpático me falou sobre seu amigo, o atual técnico do Fluminense, Muricy Ramalho. Disse que sempre falava com ele e brincava com suas derrotas e vitórias do futebol. Até Silvão aparecer, eu estava pensando muito na saudade que sinto de meu incrível avô “Carlitão”. Incrível porque era impressionante a simpatia e admiração que ele causava nas pessoas, sendo ele uma pessoa extremamente genuína. Meu avô era uma dessas pessoas que deveriam viver pra sempre, de tão bem que estas pessoas fazem pra humanidade. Uma coisa se ligou a outra. Foi meu avô quem levou Muricy Ramalho ao México quando ele era jogador. Silvão e Carlitão eram, e são pessoas, que não ligam, pensando em hierarquia social, para quem sejam seus interlocutores, isso é, não lhes importam que conversem com um rico ou pobre, que os outros vão, ou não, lhes oferecer algo, financeiramente falando. Quantas vezes vi meu avô conversar da mesma forma com o sujeito da esquina e com o presidente do São Paulo F. C. Assim é Silvão, não lhe interessava se sou um grande empresário ou apenas um professor de sociologia. Em última análise, somos todos iguais, e mais, é muito mais provável que encontremos pessoas incríveis em um simples professor de sociologia (puxando a sardinha pro meu lado) do que em um grande ator de Hollywood, por exemplo. Destaco ainda que ambos são de gerações próximas e não foram criados sob o signo do neoliberalismo, da competição e do individualismo. Fico muito triste quando, geralmente, conhecidos meus dizem que vão a tal lugar para fazer “contatos”. Na verdade, isso é uma instrumentalização das relações sociais, ou pior, capitalização das relações sociais. Se você conhece alguém que seja assim, pode lhe dizer que ele é menos humano. Sim, porque você faz uma “amizade” pensando nos dividendos futuros resultantes dela. Conheci muita gente assim, e sempre tive pena deles. Porém, não é o fim do caminho para eles. Assim como eles aprenderam a ser dessa forma, eles podem mudar. Por fim, as gerações um pouco mais antigas, a meu ver, são muito mais encantadoras que nós.
Todos passam, todos passamos, mas aprendamos algumas coisas com o passar. Que Carlitão e Silvão deixem valores eternos para a humanidade! É o que eu desejo.

3 comentários:

Abaporu disse...

Você apenas um professor de sociologia?
Tão jovem e com uma alma tão plena!
Em um texto seu foi dito que
"O tempo não existe
Somos nós que existimos"...

No entanto devemos considerar que o tempo nos faz melhores entendedores da vida.E você com tão pouco tempo de vida demonstra um conhecimento muito significativo sobre a existência.
Não o conheço ,mas o caracterizaria como uma pessoa que tem alma de poeta,um espírito altamente filosófico,e que tem no âmago a pureza de um menino.
Considero que isso é o que te faz ser apenas um professor de sociologia - encantador!

Tádzio Peters Coelho disse...

Sinceramente, não sei nem o que escrever. A educação me manda agradecer, mas acho que seria incompatível.
O fato é que nunca me elogiaram dessa forma e (fazer o que, né?)agradeço.
Cordialmente, discordo que eu seja isso tudo. Como escrevi no texto, a minha parte boa são as pessoas que me rodeiam.
Me deixa feliz saber que esteja acompanhando o blog te convido a participar mais vezes.
Você escreve em algum blog?
Inté!

Abaporu disse...

"Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril."

Loucos e Santos-Oscar Wilde