quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

EUFORIA DEPENDENTE




A história é sempre movimento, ela está em permanente transformação, isso é, não voltamos às mesmas condições que já existiram um dia. E nós vamos embalados nesse movimento coletivo que nos coage e condiciona, ainda que muitos não percebam. Tal processo pode ser visto hoje em dia em nosso país. Vivemos um momento especial dentro de nossa oprimida história. Devido a uma série de condições econômicas, políticas e sociais, o Brasil volta a deslumbrar a perspectiva do desenvolvimento, é a volta da concepção do “país do futuro”. Este sentimento está traduzido nos números sobre o otimismo nacional em relação eu futuro, no que diz respeito às condições econômicas. Em janeiro, a pesquisa do IPEA atingiu seu maior patamar desde que começou a ser feita. Novos debates surgem trazendo de volta à pauta do dia o nacional-desenvolvimentismo. Essa corrente intelectual-prática esteve à toda tona na industrialização latino-americana da primeira metade do século XX. O fato é que tal otimismo tem, em grande parte, razão de existir. Diminuímos consideravelmente a pobreza. Segundo o comunicado 58 do IPEA, de 1995 a 2008, a taxa nacional de pobreza absoluta caiu de 43,4% para 28,8% e a de pobreza extrema, de 20,9% para 10,5%. Assim, trouxemos uma imensa população para a chamada classe C (rendimento familiar entre R$1.126 e R$4.854). De 2003 a 2009, incorporamos 29 milhões de pessoas a classe C (“A Nova Classe Média Brasileira”- FGV). Nos últimos anos, o salário mínimo cresceu acima da inflação, a alta dos preços das commodities estimula as exportações de minério de ferro e soja, dentre outros, o crescente crédito aumenta o consumo, políticas sociais têm o objetivo de erradicar a pobreza extrema até 2016, e os investimentos estatais em infra-estrutura sobem a níveis constantes (mesmo que este ano, o orçamento federal tenha sido cortado em R$50 bilhões em combate à inflação e para atingir o superávit primário, isso é, pagar a dívida pública, mas isto é assunto par outro texto). Tudo isso que citei constitui um panorama novo, o qual eu pessoalmente jamais vivi.

Imagino que nos anos 50s era muito forte a esperança em um “país do futuro”. Porém, nosso desenvolvimento se mostrou ser desenvolvimento do subdesenvolvimento, isso é, com crescimento econômico acompanhado de um extrema concentração de renda, nos levando ao posto de um dos países mais desiguais do mundo. Segundo o índice GINI, numa escala que vai até 1, estamos com 0,5448, chegamos a 0,6091 nos anos 90s, e naos anos 60s (que é a medição mais antiga do Brasil que tem o GINI), estavamos com 0,5367. A violência urbana estorou junto com o inchaço das grandes cidades e com o ascenso do tráfico de drogas. A realidade de um país dependente se mostrou insuficiente para alçarmos sonhos maiores. O será ainda nos dias de hoje?
O fato é que a hegemonia americana já não é soberana, o que abre espaço para novos movimentos políticos e econômicos. O leste asiático (Japão, China, Coréia do Sul) surge como novo ator relevante nessa disputa. A ascensão econômica chinesa deu fôlego novo e fundamental para a economia mundial e, por conseguinte, ao próprio capitalismo.

A produção de matérias-primas não condiciona a produção industrial, por estar abaixo na hierarquia produtiva, mas a produção industrial, quando cresce, incentiva que o mesmo processo se passe na produção de matérias-primas. E foi uma das principais razões para o crescimento econômico brasileiro. Disparam as exportações de minério de ferro e outras commodities. É este o conteúdo principal das exportações brasileiras, produtos com baixo valor agregado. Em 2010, o Brasil (leia-se Vale) vendeu US$ 28 bilhões de minério de ferro bruto. E agora o país acaba de lançar um edital internacional para comprar 244,6 mil toneladas de trilhos da China e Leste Europeu, com preço médio quase sete vezes maior que o do minério bruto. Trilhos feitos do mesmo minério de ferro que vendemos. Isso demonstra que no momento atual, com a alta dos preços das commodities, o Brasil vem se especializando mais ainda na produção de matérias-primas. Porém, podemos perguntar: até quando a China manterá seu crescimento econômico? E outra preocupação, o atual movimento das empresas estatais chinesas é o de comprar as fábricas de matérias-primas, como podemos notar com as atuais aquisições chinesas de pequenas e médias empresas brasileiras. O certo é que devemos tomar cuidado com esta relação com a China, pois um novo tipo de imperialismo parece surgir. Nos fins do século XIX, José Martí já mostrava preocupação com o que o EUA poderia vir a ser, preocupação que se mostrou justificada ao longo do século XX.

Nem a indústria e nem a produção de matérias-primas resulta em alto número de empregos criados e na qualidade dos mesmos. Isso devido a automação e altíssima produtividade com baixa utilização de mão de obra. O que sabemos hoje é que a grande maioria dos empregos corresponde ao ramos dos serviços. Porém, esse ramo econômico só se desenvolve em lugares que retém capital, assim sendo, países altamente industrializados. Devo destacar que o fim do desemprego no modo de produção capitalista é uma falácia, que para tal objetivo seria necessário mudarmos de modo de produção, o que, por sua vez, não está nem no horizonte do longo prazo.

O certo é que a nossa principal necessidade para escapar ao desenvolvimento do subdesenvolvimento é atingir a autonomia política. E essa só será alcançada com a real mobilização das classes populares, setores da classe média, trabalhadores, estudantes, desempregados, isso é, o que pode haver de progressista em nosso país (lembrando que isso é uma potencialidade, assim, pode acontecer ou não). A autonomia política é a forma de batermos de frente com a oligarquia brasileira ligada ao capital externo.

É necessário, também, que se aprofundem qualitativamente os meios democráticos, pois é um fato que, apesar de limitada, a recente democratização brasileira possibilitou as recentes conquistas sociais.

Precisamos aumentar a poupança nacional para investimentos estruturais e aprofundar as políticas sociais, além de melhorar as condições de trabalho (como o salário mínimo).

Apenas uma revolução científico-tecnológica, com forte desenvolvimento no campo da educação, inverteremos a dependência que temos por investimentos do capital, de tecnologia e conhecimento científico estrangeiro. Dessa forma, poderemos escapar à dependência que temos da exploração de recursos naturais, e diminuiremos a destruição de nosso já frágil meio ambiente. Minas Gerais se tornou num gigantesco canteiro de obras desde o início da alta da demanda chinesa e do preço do minério de ferro.

O pré-sal será a grande amostra de como está a real correlação das forças políticas no Brasil, estrangeiras e nacionais. Até lá, seguremos essa nossa euforia dependente e sejamos conscientes, pois a tarefa que se impõe jamais foi realizada por nós e pode mudar nosso panorama de desigualdade social. Do contrário, miramos mais uma vez o desenvolvimento do subdesenvolvimento para o século XXI, e os resultados serão ainda mais drásticos.

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