terça-feira, 29 de março de 2011

O RESTAURANTE POPULAR DO MARACANÃ




O termo desenvolvimento é, nos tempos atuais, uma das palavras mais usadas. Tornou-se um desses conceitos guarda-chuva que abrigam inúmeros significados. Vem sendo usado tanto pela direita quanto pela esquerda, pode ser um empreendimento industrial ou algum projeto social, pode ser usado tanto por um tecnocrata do FMI quanto por ambientalistas do Greenpeace. Dessa forma, é utilizado nos mais díspares contextos pelos mais afastados atores sociais. Assim é o que acontece com imensas obras- como hidrelétricas, minas, usinas, plantações- que afetam tantas pessoas em nome de um suposto desenvolvimento. É um desses casos que quero relatar aqui.
Desde o começo de 2010, quando cheguei à cidade maravilhosa, frequento o Restaurante Popular do Maracanã. Este restaurante, popularmente chamado de “Restaurante do Garotinho”- na última eleição, o sujeitinho instalou inúmeros outdoors em frente ao restaurante- por ter sido inaugurado durante a gestão do menininho, está localizado dentro do estádio de futebol Maracanã, serve almoço por R$1,00, além de café da manhã. O estádio fica ao lado da UERJ e do Morro da Mangueira. Os frequentadores do funcional refeitório são uma síntese do que podemos chamar de povo brasileiro. São estudantes colegiais, universitários, lixeiros, moradores de rua, desempregados, moradores da Mangueira, mecânicos, servidores públicos, e quem mais estiver passando por perto, isso é, o pessoal que não aparece na novela mas que constitui a maioria de nossa tão célebre e sofrida população. Por lá, conheci um MC de funk que chegava todo dia cantando este ritmo, fazendo rimas que brincavam com os funcionários do restaurante. Também conheci um senhor que notorizou-se no programa “Pânico” por uma vinheta em que aparece chamando pelo jogador de futebol Adriano. E fiquei conhecido de inúmeros moradores de rua que faziam pratos gigantes de arroz e feijão, refeição essa que seria a única do dia. Ainda nos dias de hoje, cumprimento um deles que dorme em uma calçada perto de casa e, claro, ofereço-lhe alguns trocados enterrados no fundo do bolso. Diga-se de passagem, a comida era muito boa, com arroz e feijão, dois acompanhamentos, duas opções de carne (ou como se fala no interiorzão de São Paulo, mistura), suco e sobremesa, tudo definido por uma nutricionista. Quantas vezes, na pobreza de fim de mês, o restaurante quebrou o meu galho!
Como os leitores podem ter notado, refiro-me ao restaurante popular no passado, isso porque o tão necessário restaurante foi fechado em dezembro do ano passado. Com qual justificativa? A reforma do Maracanã para a Copa do Mundo. E assim se manterá até 2014, e alguns ainda dizem que não mais voltará, visto aquela ser uma área turística, e não é de bom tom deixar o povo brasileiro se aproximar dos gringos.
Ao povo brasileiro disseram que a Copa do Mundo traria o desenvolvimento! Novamente esse mega conceito que oportunamente é utilizado para esconder as reais consequências do processo. Não quero me aprofundar numa discussão sobre as benesse do evento. O que quero mostrar é que a nível imediato, no que vejo em meu dia a dia de morador do bairro Maracanã, o desenvolvimento o será proveitoso para as classes dirigentes, com suas falcatruas e apropriações privadas de dinheiro público, enquanto o povo brasileiro mais uma vez se encontra marginalizado! O restaurante popular é um claro exemplo disso. Conheço muita gente que dependia do restaurante para ter uma alimentação minimamente nutritiva.
Quando afrontada pela miséria, a classe média tijucana (referente ao bairro da Tijuca, próximo ao Maracanã) a responde com uma ordem: “vá ao Restaurante do Maracanã, pois é lá que vocês almoçam”. Obviamente, ignara dos descaminhos tomados pelo restaurante das massas populares. A Tijuca e suas proximidades é uma região apinhada de gente dormindo no chão por todos lados, realidade que a cortina litoral da zona sul não mostra aos milhares de visitantes da “cidade maravilhosa”.
O mais comum é se referirem ao restaurante com elitistas acusações de populismo, de quem jamais esteve em situação de risco alimentar, exaltando o simplista paradoxo de ensinar a pescar ao invés de dar o peixe. Cortando de cara o falso paradoxo, bem disse Patrus Ananias, sem o peixe você ao menos consegue chegar ao rio para pescar. O fato do restaurante ter sido inaugurado com intenções eleitorais não supera outro fato essencial, de que a satisfação das necessidades básicas é A condição sine qua non para o desenvolvimento humano (aí está o desenvolvimento novamente). Isso é uma conclusão de que tão simples passa a ser primordial. Existem milhares de pessoas em situação de risco alimentar, e o primeiro passo é satisfazer essa necessidade elementar. Se isso é utilizado ou não como oportunismo político é uma discussão que não invalida a ação em si.
Na minha visão, o desenvolvimento como ele é abordado geralmente esconde o seu caráter de projeto de classe, isso é, o processo é planejado por uma classe a favor de si mesma. Assim se deu o desenvolvimento econômico brasileiro durante a ditadura militar, com extrema concentração de renda.
Ao seu Firmino, ao Barba ruiva, ambos moradores de rua, resta-lhes pedir algum trocado quando me vêem passar.

4 comentários:

Abaporu disse...

É mesmo óbvia a realidade!

Acreditava-se que em até 2015 haveria a erradicação da pobreza mundial.

Marco disse...

Me desculpe a pergunta(não sei se terá resposta)mas gostaria de uma dica de um local barato para se almoçar nessa região Tijuca ou Maracanã?

Minha situação financeira está difícil e não posso me dar ao luxo de almoçar a R$6 ou R$7 reais por um prato simples.

Tádzio Peters Coelho disse...

Ixi, Marcos, complicado viu. Dentro da UERJ você encontra almoço por 4 reais. A esperança é que o bandeijão da UERJ fique pronto logo.

Sara disse...

sem dúvida, um lugar muito bonito, espero que em algum momento você deve saber, eu acho que quando eu voltar das hoteis em argentina vou visitar.