terça-feira, 19 de julho de 2011

ANÁLISE DAS ENTREVISTAS COM EX-TRABALHADORES DA MMV


Saídas e Bandeiras


Milton Nascimento e Fernando Brant

O que vocês diriam dessa coisa que não dá mais pé?
O que vocês fariam pra sair dessa maré?
O que era sonho virou terra
quem vai ser o primeiro a me responder?

O que vocês diriam dessa coisa que não dá mais pé?
O que vocês fariam pra sair dessa maré?
O que era pedra virou terra
quem vai ser o segundo a me responder?


AGRADECIMENTOS ESPECIAIS AOS ALUNOS DO DOM CIRILO DE PAULA!

Exporei aqui a interpretação qualitativa de diferentes discursos sobre a atividade mineira-exportadora, tendo o município de Raposos como espaço geográfico de análise. Neste contexto, analisei três diferentes discursos sobre a mineração, divididos em duas partes:
A primeira parte é a análise do discurso dos ex-trabalhadores da MMV (antiga Mineração Morro Velho e atual Anglo Gold Ashanti), residentes de Raposos. A fonte destes discursos é um trabalho que os alunos da escola Dom Cirilo de Paula Freitas fizeram como parte da disciplina curricular de Sociologia, ministrada por mim no ano de 2009. Os alunos entrevistaram ex-trabalhadores da MMV vitimados pela doença silicose.
Para análise das entrevistas me ajudou muito o excelente trabalho de MINAYO (2004). Nele a autora estuda os efeitos da privatização da CVRD (Companhia Vale do Rio Doce) na subjetividade operária, entrevistando variados grupos. Tomei emprestado alguns procedimentos básicos para análise de entrevista usados pela autora, que são dois: “incidência de ênfase em determinados aspectos da realidade, apreendida na ordenação das informações de campo; e confronto do material empírico com as teorias existente sobre os assuntos classificados” (p.74).
As entrevistas foram registradas por meio da escrita e por gravação de vídeo. A escolha dos alunos tinha como único condicionante que fossem ex-trabalhadores da MMV os entrevistados. A silicose surge como denominador comum nesse contexto, visto a dificuldade de encontrar ex-trabalhadores que não houvessem contraído a doença. Foram oito perguntas compostas por mim e mais oito perguntas criadas pelos alunos.
Ao longo das exposições dos trabalhos dos alunos, notei que muitos deles não conheciam a doença antes das entrevistas, mesmo que vários de seus familiares tivessem a silicose. Após isso, muitos deles começaram a atentar aos problemas de sua própria região e classe social.
Há de se observar que a classe operária constitui um universo cultural próprio que se distingue das outras classes. Partimos do mesmo princípio que MINAYO (2004, p. 67) de que “a posição diferencial de classes dentro da sociedade lhes confere uma forma de agir, pensar e se expressar também diferenciada”. Os operários da mineração têm considerações próprias sobre os efeitos da mineração, sendo eles os que sofrem estas consequências mais diretamente.
Enumerarei quatro aspectos que surgiram na maioria das entrevistas- alguns em todas:
O primeiro aspecto que chama atenção, principalmente porque todos os entrevistados seguiram a mesma direção, é quando perguntados sobre quem eles pensam ter sido o maior beneficiado com as riquezas produzidas na mineração. As respostas são: “a mineradora”, “os donos” ou “sem dúvidas os donos”, “a empresa”, “a Morro Velho”, “o governo e a empresa”, “os acionistas”. Destaca-se a pura ausência de respostas que levasse-nos a crer que os grandes beneficiados fossem os próprios trabalhadores ou a população de Raposos. Isso revela a consciência que tem os trabalhadores frente ao processo exploratório. Isso se deve, provavelmente, ao fato de que os malefícios da mineração se tornaram evidentes com a doença silicose, ou, ainda, pela forte atuação do sindicato da categoria. “Moscou” ou “cidade vermelha” são alguns dos apelidos de Raposos e Nova Lima por causa da atuação histórica dos sindicatos dos trabalhadores da mineração (para maiores detalhes vide GROSSI, 1981). A constatação, em todas as entrevistas, de que os grandes beneficiados são a Mineradora, os acionistas e o Governo, não chega a ameaçar essencialmente a hegemonia mineradora, já que, na maioria das vezes, essa consciência não se traduz em emancipação dos trabalhadores. A razão disso pode ser os aspectos terceiro e quarto que levantarei.
O segundo aspecto, que quero ressaltar, é sobre a continuação da atividade mineira-exportadora. Quando perguntados se ela deve ou não continuar, a resposta uníssona é que sim, deve continuar. As razões para isso são que: a mineração trouxe um suposto desenvolvimento para a cidade; os avanços tecnológicos diminuíram os riscos do trabalho minerador; e que, principalmente, diminui o desemprego. Realmente, com a revolução tecnológica, o trabalho na mineração mudou bastante. Se antes a principal forma de minerar era através do “muque”, do trabalho manual, hoje essa função é exercida principalmente por máquinas. No entanto, os avanços tecnológicos diminuem a oferta de empregos. Novamente, podemos notar a ação do discurso desenvolvimentista, fundamental para a manter a ordem hegemônica.
O terceiro aspecto se mistura ao segundo. É a constatação da evolução tecnológica ao longo da segunda metade do século XX. Para eles, o advento tecnológico resulta na diminuição dos riscos associados ao trabalho minerador. Ainda para os entrevistados, a queda do risco para os operários deve-se, também, à forte atuação sindical na exigência de melhoria das condições de trabalho. Esses dois fatores fizeram com que a taxa de acidentes caísse sensivelmente, o que justificaria a permanência da atividade mineira-exportadora.
O quarto aspecto diz respeito à razão para terem trabalhado com mineração. A grande maioria declarou ter aceito o emprego por falta de opções. Em geral, quando perguntados sobre que conselhos dariam aos jovens trabalhadores que podem entrar na mineração, disseram que é melhor para quem “tiver estudo” evitar o emprego na mineração. Pois, ainda que com os avanços tecnológicos, o risco de acidentes é demasiado alto. A falta de empregos e a miséria evidente das regiões mineradoras facilita o estabelecimento da hegemonia mineradora. O emprego como operário da mineração, por pior que sejam suas condições, acaba sendo a única forma de saciar as necessidades do trabalhador e de sua família.
Por fim, é interessante destacar a frase de Nélson Miguel dos Santos sobre os processos decisórios na região: “a gente, como operário, não tinha muita influência”.

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