segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A MONTANHA DE PRATA (parte I)


“Soy el rico Potosí
Del mundo soy el tesoro
Soy el Rey de los montes
Envidia soy de los reyes”

“No había riqueza sin minas, ni minas sin índios”
Marques de Castelfuerte

“A economia colonial latino-americana dispôs da maior concentração de força de trabalho até então conhecida, para possibilitar a maior concentração de riqueza que jamais possuiu qualquer civilização na história mundial.
A prata e o ouro da América penetraram como um ácido corrosivo, no dizer de Engels, por todos os poros da sociedade feudal moribunda na Europa; à serviço do nascente mercantilismo capitalista os empresários mineiros converteram os índios e escravos negros em numerosíssimo “proletariado externo” da economia européia”.
Eduardo Galeano

O blog esteve sem textos novos nos últimos tempos devido à viagem que fiz para a Bolívia. E é sobre uma parte desta viagem que este texto trata. Antes de começar a descrição da experiência vivida e a reflexão inerente a ela devo deixar claro que sou um apaixonado pela Bolívia, me encanta sua cultura popular, sua gente receptiva, sua história e sou um entusiasta do governo Evo Morales e de suas conseqüências, sobre as quais ainda publicarei um texto aqui. Destaco minha paixão boliviana para que não pensem que sou um etnocêntrico bairrista, já que este texto é bastante crítico e de certa forma triste. Triste por simbolizar a forma pura de exploração do homem sobre o homem dentro dos moldes econômicos capitalistas.
Com 15 anos li o livro, já clássico, “As Veias Abertas da América Latina” de Eduardo Galeano. Livro este que foi decisivo nos caminhos tomados por mim dali em diante. Foi com certeza, até aqui, a leitura mais marcante de minha vida. Por meio dela tive pela primeira vez contato com uma montanha chamada Cerro Rico de Potosí, localizada ao sul da Bolívia. As coisas que li sobre Potosí me recordavam muito minha terra mineira, e esta é uma comparação que me acompanhou também em toda a viagem. Esta montanha foi a maior fornecedora de prata da história humana. Potosí produzia cerca de 50 % da prata mundial nos séculos XVI e XVII. Daí surge o ditado espanhol que aparece até mesmo no Don Quixote: “vale um Potosí”, algo que vale muito. Sua descoberta se deu em 1545 quando o índio Huayna Cápac descansou a noite aos pés da montanha, e para se aquecer acendeu uma fogueira. Ao amanhecer, o fogo havia fundido o chão em pura prata. Dizem que com a prata retirada dali é possível fazer uma ponte entre Potosí e Madrid. Foram retirados de lá 33 mil toneladas de prata até inícios do século 19, fora o contrabando. Foi a partir de sua descoberta que se tornou rentável para os espanhóis a conquista, ou podemos dizer, chacina americana. A recíproca de riqueza não era e nunca foi verdadeira para a América. Diz Galeano no livro:

“Aquela sociedade potosina, enferma de ostentação e desperdício, só deixou na Bolívia a vaga memória de seus esplendores, as ruínas de seus templos e palácios, e oito milhões de cadáveres”.

E me recordo da citação que tirei de Caio Prado Jr em “A Formação Histórica do Brasil”:

“Chega-se em fins do século XVIII a um momento em que já se tinham esgotado praticamente todos os depósitos superficiais em toda a vasta área em que ocorreram. A mineração sofre então seu colapso final. Nada se acumulara na fase mais próspera para fazer frente à eventualidade. Os recursos necessários para restaurar a mineração, reorganizá-la sobre novas bases que a situação impunha, tinham se volatizado, através do oneroso sistema fiscal vigente, no fausto da corte e na sua dispendiosa e ineficiente administração (...) A ignorância, a rotina, a incapacidade de organização nessa sociedade caótica que se instalara nas minas, e cuja constituição não fora condicionada por outro critério que dar quintos a um rei esbanjador e à sua corte de parasitos, e no resto satisfazer o apetite imoderado de aventureiros, davam-se as mãos para completar o desastre” (PRADO Jr, 1984, p.62).

Apesar das semelhanças Prado Jr se refere a Minas Gerais e não a Potosí. Isso pra mostrar a profunda relação entre as duas terras. André Gunder Frank destacou que as regiões mais marcadas pelo subdesenvolvimento e pela pobreza são aquelas que no passado tiveram laços mais estreitos com a metrópole e desfrutaram de períodos de auge.

Estava eu, antes de ir a Potosí, em Sucre, cidade esta nascida da resplandecência da prata potosina, por isso mesmo antigamente intitulada de La Plata, e que caiu junto com Potosí no esquecimento. Hoje mostra seus casarões vazios e seus enormes palácios petrificados, justo na cidade onde foi assinada a independência da Bolívia pelos libertadores Simón Bolívar e Vicente Sucre.
Peguei um ônibus parecido com um circular, visto a pouca distância entre as duas cidades, e parti em direção ao passado. O caminho se faz por entre um longuíssimo altiplano, com criações de llamas e plantações de batata, e ao fundo a belíssima cordilheira dos Andes. À medida que se sobe o ambiente vai se tornando mais árido, seco e frio. A chegada se dá pela parte baixa da cidade, as casas sem acabamento dão a sensação de uma cidade de terra escura. Algo que não é impressão, e sim fato, é a pobreza da cidade. Logo trombo meu olhar com a imponente montanha, compadeço diante da montanha, ela indiferente ao que se passa lá embaixo e eu impotente frente ao destino inexorável da montanha, de destruir e ser destruída.
Não sei se é por já conhecer a terrível história, mas a montanha transmite algo de ruim. Suas várias cores opacas metálicas são decorrentes das várias empreitadas humanas. Assim como em Raposos, ao lado da mina Morro Velho, vejo na entrada de Potosí um enorme cemitério. Pela noite, logo noto outras similitudes com as minhas Minas, além da gritante pobreza. São as faustosas catedrais construídas em tempos azulados, de já-lenda, de já-história. Hoje dividem espaço com o abandono e a miséria.
As primeiras horas em Potosí não me caíram bem, a alegria de meus amigos não foi compartilhada por mim. No dia seguinte senti fortemente os efeitos da altitude (ou da montanha?) como sangramento de nariz, dor de cabeça, além, é claro, da falta de ar, “esta montanha não gosta de mineiros” pensei eu.

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