sexta-feira, 16 de abril de 2010

A DIMENSÃO MORAL NA SOCIOLOGIA




Começo este texto com perguntas diretas que faço frequentemente a mim mesmo: qual é o papel da sociologia? E quais são as especificidades desta “profissão” frente as outras?
Para responder a estas questões traço primeiramente o perfil estereotipado do sociólogo. Geralmente quando alguém de fora da profissão pensa no que é um sociólogo vem a imagem de um sujeito de barba e óculos, carrancudo, de inclinação política socialista, que gosta de confusão e que se expressa de uma forma que ninguém entende. Realmente existe uma base para tal idéia do que é um sociólogo. Pela sociologia ter se envolvido ao longo da história com inúmeras atividades políticas vem à idéia um profissional afeito ao pensamento de esquerda. A barba é um ícone desta posição política e o carrancudo provavelmente pela necessidade definitiva de interrogar as pessoas sobre os caminhos tomados pela sociedade o torna de certa forma um chato na visão da maioria. Mas destas características aquela que mais me irrita - não por ser preconceituosa, mas por ter uma relativa ligação com o real – é a de que não conseguimos nos comunicar de maneira satisfatória com a sociedade. Por que a irritação? Pela simples razão de que este é um dos sintomas que evidenciam o fracasso de não estarmos conseguindo atingir nosso principal objetivo (respondendo à primeira pergunta feita no começo do texto): a de transformar a sociedade, mesmo que isso vá contra os interesses dominantes e dos dominantes.
O que comprovo com minha experiência é que, realmente, não temos conseguido ultrapassar este obstáculo, que é ir contra a maré, a favor dos dominados contra os dominantes. Isso causado por uma série de problemas. Entre eles a elitização da produção científica na sociologia, isso é, a maioria dos estudos sociológicos na atualidade estão ligados organicamente aos interesses das classes dominantes. A sociologia fica em uma torre de marfim acadêmica e não consegue atingir as entranhas da população no que refere às grandes questões de nossos tempos: acabar com a pobreza; construir uma sociedade diferente; destruir a desigualdade social, etc. Geralmente tenta-se atrelar a sociologia a uma neutralidade científica, que jamais existiu e existirá. Solicito a volta da sociologia ao que chamarei aqui de dimensão moral. Sim, ela deve se comprometer com os “condenados da terra” (expressão de Frantz Fanon).
A nosso favor temos um condicionante material, de que a maioria dos sociólogos não trabalha à favor do lucro, o que impõe inúmeros limites aos seus servos. Sendo assim, não temos condicionantes de produtividade de lucro (o que é diferente de produtividade acadêmica), e nosso patrão, na maioria dos casos, é o Estado. Essa instituição é capitalista em sua essência, mas dialeticamente abriga inúmeras contradições, nós somos uma delas. Como sociólogo formado e que trabalha para e pelo Estado não respondo a um patrão da forma que o é quando trabalho em uma empresa privada, que tem como finalidade primeira a produção e concentração de lucro.
Tal constatação me dá uma liberdade muito maior de pensamento e ação (na verdade ambos são a mesma coisa). Não trabalhar a favor do lucro, diretamente, tem outras conseqüências que dificultam nosso trabalho, como as difíceis condições sociais do sociólogo. Não, o sociólogo não faz voto de pobreza, em geral, somos mal pagos pois não somos vistos como essenciais para a produção de lucro por aqueles que detêm, ou são detidos, pelo capital. Afinal o sociólogo que vos escreve, como muitos sabem, muitas vezes pede “emprestado” para tomar uma (s) cerveja (s). Deixando as questões etílicas de lado, a falta de recursos é um dificultador constante na vida do sociólogo e que faz com que muitos desistam da tão nobre proifissão.
Mas ao mesmo tempo, posso muito bem fazer um estudo que questione o modelo de desenvolvimento Eike Batistiano sem por isso ser despedido.
Se a sociologia não consegue fazer isso (lutar por seu objetivo transformador) deve, então, desaparecer, se tornando apenas uma ridícula fonte saneadora da vaidade intelectual de alguns indivíduos. Se isso acontecer volto a tentar minha falida carreira futebolística. Neste aspecto peço uma volta às raízes das ciências sociais, pois elas nasceram da preocupação de pensadores do século XVIII em fazer da humanidade algo melhor. Contra a ciência da ordem e pela volta da dimensão moral à ciência social escrevo este texto.

7 comentários:

Benzadeus disse...

Ah, bem lembrado! Você tá me devendo uma grana de umas cachaçadas aí...

Luciana disse...

Não entendi o raciocínio. Pelo que sei, a Sociologia se tornou matéria obrigatória no currículo do Ensino Médio, tanto nas escolas particulares, quanto estaduais, municipais e federais. A Sociologia tem atingido todos os estudantes que entrarão no mercado de trabalho em breve (se é que já não entraram). De repente, com o incentivo dos professores, estes cidadãos se despertem para uma visão social justa(?).

Esta ideia de justiça me faz questionar: Quando você luta por este ideal de sociedade justa e igualitária, você está indo a favor dos interesses de todos mesmo, ou dos interesses da maioria que nem mesmo tem conhecimento ou conseguem definir sua posição social?

Pergunto isso porque estava pensando no papel do urbanista na sociedade também... Não faz parte do planejamento do urbanista a construção de casas populares em locais de alto risco. Na verdade, dependendo da constituição do solo, nem mesmo para casas de alto nível é possível fazer fundações (caras!) que satisfaçam a condição do sítio no qual ela seria assentada. Mas quando se planeja espaços não há previsão de como as outras pessoas o utilizarão. A maioria da população aceita as imposições, mas revertem os significados dos espaços, ultrapassando as ordens dos planejadores. Estes, não conseguem imaginar ou prever os efeitos distorcidos de suas próprias intervenções. Na verdade, o que a favela representa é um protesto contra a sociedade que está sempre “jogando” os mais pobres para regiões mais distantes do centro, talvez a fim de esconder essa diferença econômica gritante que existe entre pessoas de uma mesma cidade.

Mais um exemplo é a Cidade Administrativa de Minas Gerais recém construída. Escolheram um local bastante estratégico onde já haviam investido na Linha Verde e próxima ao Aeroporto Internacional. Nesta região, moram pessoas de classe mais baixa que pegam ônibus para trabalharem na zona central da capital mineira. A região, que antes era desvalorizada e onde as pessoas foram “jogadas”, agora valorizou 100% devido a presença do Centro.

E voltando ao foco dos meus questionamentos, como você não consegue se comunicar de maneira satisfatória?! Eu sempre bato nesta tecla, os professores são grandes formadores de opinião. Se você desperta o interesse de jovens de 15 a 18 anos para estes assuntos, já está se comunicando de uma maneira bastante relevante para atingir seus objetivos sociais. Tenho certeza que nesta idade você era mais sonhador e otimista.

E outra coisa: até mesmo os professores podem ser impedidos de falarem tudo o que pensam nas escolas particulares, que sim, visam o lucro também. Mas quando você trabalha para o Estado o patrão não é físico como você mesmo disse, te dando mais abertura para expor seus ideais. Então não sei por que você está reclamando. Está com a faca e o queijo na mão!

O processo é lento e não terá resultados muito significativos a curto prazo, mas se você traçar um plano e conseguir atingir as pessoas certas, pode conseguir mudanças satisfatórias.

Obs.:
1- Você fica bem de barba.
2- Não desista de sua profissão, mas continue arrumando bicos para sobreviver; já pensou na possibilidade de se tornar gigolô?! =p

NINGUÉM DEVIA TEMER SEU GOVERNO.
O GOVERNO É QUE DEVIA TEMER SEU POVO!

Tádzio Peters Coelho disse...

Interessante o que você escreveu sobre urbanismo, me fez lembrar bastante dos episódios atuai no Rio de Janeiro.
Acho que não mne fiz entender direito no texto. Na verdade ele não discute a sociologia no ensino médio, e sim nos centros de produção sociológica: as universidades. Da maneira como esta produção não é neutra e separada da realidade (mostrando, por isso, uma forte influência positivista), mas ligada a interesses de classes sociais em confronto.
Muito relevante a questão que você levanta sobre o interesse dominante, o dos dominantes e o dos dominados. Escrevo sobre isso nos textos "A Democracia como aparência" (30/06/09) e "A Esperança versus a mentira" (04/09/09). Para compreender essa relação de interesses podemos utilizar o conceito de Ideologia. Ela é um conjunto de idéias que mostram a realidade social de maneira invertida, o mundo nos aparece de cabeça para baixo. Exatamente para esconder a realidade social, que envolve exploração, desigualdade, etc. Assim, por meio de várias instiuições (escolas, religião, Estado, meios de comunicação, etc) os dominantes fazem os dominados acreditarem que seus interesses são os mesmos da classe dominante, os alienando da realidade social.
Ah e obrigado pela sugestão de bico hehe.

marbeirario disse...

Em seu texto está bem determinado o questionamento a respeito da Sociologia como profissão.

No comentário foi mencionado a inserção da Sociologia no Ensino Médio.É certo que agora é matéria obrigatória no currículo escolar.Foi também citado em comentário a questão do professor ser um formador de opiniões.Certo.

Trabalho em escolas públicas de ensino médio e fundamental. Apresentei aos alunos um texto de Marcelo Gleiser,baseado em pensamentos de Millan Kundera,sobre a importância de questionar,elaborar perguntas e buscar respostas sensatas e eficazes.Percebi que os alunos não estão sendo preparados para argumentar, elaborar perguntas,desenvolver respostas satisfatórias,analisar criticamente um contexto.
Para alguns escola é apenas para a aquisição de conhecimentos que garantam a aprovação numa universidade federal, para outros limita-se ao ensino básico da leitura e escrita...
E a socialização?E o pensar?E o que se pode alcançar após o despertar do pensamento?
Não houve esse questionamento .Não estamos preparando alunos para pensar ,ou mesmo para compreender e buscar o verdadeiro significado de Educação.Muitos são os conceitos que a sociedade possui sobre o que é Educar,mas ainda não conseguimos definir Educação.

Nós,os profissionais estamos preparados para difundir conhecimentos e ser formadores de opiniões sensatas?Haja vista que muitos de nós,tivemos uma formação baseada em preceitos sociais que não enfatizavam e por vezes evitavam o pensamento e as argumentações dialéticas.A Dialética,essa parece ter sido "exterminada"juntamente com seu criador.

Assim como para os sociólogos,a falta de recursos é também um grande dificultador na vida dos professores,fazendo com que muitos desistam de tão nobre profissão.
São imensuravéis as falhas da sociedade,grandes as lacunas do comportamento e do conhecimento humano.Alguns danos são irreparáveis.
Indubitavelmente,Sociologia e Educação conseguem lutar e alcançar o objetivo transformador,mas ocorre lentamente.
Considerando o desenvolvimento e a extensão dos problemas sociais ,um toque de Midas,embora mitológico,seria um metódo ideal para esse processo de transformação.

Luciana disse...

Em cada aluno, a curiosidade e o interesse são despertados de uma forma diferente (ou não). Meu irmão formou em Pedagogia e pelas conversas que tive com ele, percebo claramente que os pedagogos sim, tem o conhecimento necessário para tentar despertar este interesse nos alunos, porque eles não difundem o conhecimento apenas, mas conseguem enxergar cada indivíduo que está ali para abordar um ensino diferenciado. Infelizmente não é necessário que se seja pedagogo para ser professor e nem todos os professores o são porque gostam da profissão, mas pela necessidade. E a sensatez não acredito que seja universal (Teria que ser baseada em alguma regra de conduta talvez, escrita por um sabichão?!)

Mas não posso entrar muito nesta questão sobre a educação no Ensino Médio ou a forma como os professores estão passando o conhecimento aos alunos e como os alunos vão absorver este conhecimento. Acho que a educação é o melhor caminho para o progresso, justamente porque quando as pessoas pensam e questionam passam a não aceitar tudo o que lhe são impostos. Mas não é o que os dominantes querem e por isso não há incentivo aos professores nem aos estudantes. =/

Bom, o que eu quis dizer com meus exemplos é que mesmo a elite acadêmica ou técnica, aqueles que fazem estudos para criar um espaço pensando no “bem comum” (claro que há implícita uma filosofia das relações entre elite e massa), estão sujeitos a ações avessas ao planejamento inicial. Pois uma coisa é impor um modelo de sociedade ou como a sociedade deveria se comportar, outra são pessoas aceitarem estas imposições. A ação dos usuários, mesmo que inconsciente pode dizer muito àqueles que acham deter o conhecimento sobre tudo, inclusive o que seria melhor para cada indivíduo.

E não dá para desenvolver soluções passando por cima da realidade: a sociedade é capitalista mesmo e não sei se é possível fugir disto.

marbeirario disse...

Olá Sociólogo,
Compreenda que exponho meus comentários, porque seu blog é destinado ao desenvolvimento de idéias e opiniões relacionadas à sociedade. Ainda mais por ser um espaço democrático, onde as opiniões podem ser analisadas e discutidas com sensatez.


Neste blog, sinto-me à vontade (e vontade) para questionar a respeito da Educação Pública.

Todos sabem que são muitas as dificuldades que encontramos nas escolas públicas. Quando se fala em escola,logo se imagina uma sala com alunos e professores. Muito raramente um indivíduo questiona sobre quem conduz os métodos de ensino.
Não existe uma metodologia a ser seguida. A orientação pedagógica muitas vezes é relacionada ao comportamento do professor,e não aos objetivos da escola.
A inspetoria analisa números, notas, quantidade de aluno, enquanto que o problema mais evidente é a qualidade da educação.
O que os inspetores, pedagogos, supervisores e nós professores temos feito para causar mudanças nas escolas públicas?
GREVE?
Se existe uma escola pública em que os critérios de Educação (em seu conceito mais amplo) são colocados em prática, vamos imitá-la. Seguir esse modelo e padronizar.
E por que não tentar aplicar os métodos de ensino privado?
Não ocorre uma movimentação para esse tipo de mudança.
Não tenho a pretensão de fugir da realidade quando aponto como sendo ideal “um toque de Midas” para causar mudanças na sociedade. Tal expressão enfatiza a realidade.
A idéia é a de que os problemas sociais precisam ser tratados com urgência, e as ciências que se ocupam disso são naturalmente lentas, porém eficazes.

Tádzio Peters Coelho disse...

Os comentários, observações e questionamentos de todos são muito bem vindos. Não havia postado nada aqui até agora por não haver necessidade, pois foram muito bem escritos sendo que eu não poderia escrever algo mais claro e preciso. Agradeço a todos pelo debate que só vem a incrementar nossa práxis.