quinta-feira, 10 de março de 2011

FERRO MORTO

“Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?”.

Fazer o quê? Como voltar para o sertão de onde saí, se ele já não existe? Será que ainda estou lá, andando por entre montanhas e sorrisos? Nas serras de terra vermelha, minha alma ferrosa se contorce como capim em queimada, estala em labaredas de fogo.
O peso do passado aumenta à cada dia e massacra essa alma, envelhecida de tanto caminhar.
Ela se mantém suja de poeira, verdade verdadeira.
Como escapar à minha condição?
Busquei desde o mais tenro momento a solidão, e ela me espreitou em cantos escuros, em vazios momentos, e agora que a encontrei compreendo meu mal necessário.
Pelas noites longas, tento afastar meus pensamentos em bares. O trabalho me faz esquecer minha condição, mas o pouco de reflexão que me permito já devasta meu coração.

“Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração”.

Na vastidão de meu coração brota uma folhagem já-seca, já-morta. E não há nada que eu possa fazer, a não ser enganar a mim mesmo.
Onde está minha Ponta de Areia? Minha chegada ao mar, onde?
Porém, realmente a chave está na minha mão e ainda não descobri se existe a porta. Hei de descobrir!

3 comentários:

Abaporu disse...

A chave está na sua mão, mas ainda não descobriu se existe porta...

Se você descobrisse,
Se você chegasse.

Místico.
E muito reflexivo esse pensamento, que também é sentimento.
E o mais interessante é que – de acordo com a poesia - o que melhor se aplica a esse contexto são ações subjuntivas, imperfeitas e pretéritas. Não são ações definitivas, estão conjugadas a diversas condições, demonstrando possibilidades e a inquietante necessidade de reflexão e persistência do indivíduo diante do seu próprio tempo.

E não há nada que você possa fazer, a não ser enganar a você mesmo...

E agora, Tadzio?
Se você não enganasse a si mesmo.

Tádzio Peters Coelho disse...

É mesmo, não é definitivo, passaremos toda nossa existência nessa condição de incerteza.
Se eu não engana-se a mim mesmo?
Não sei. Quem sabe seria mais feliz, mais ousado, faria o que deve ser feito, me posicionaria junto aos justos. Uma coisa é certa, se não fossemos enganados por nós mesmos faríamos uma bagunça danada! Aliás, uma bagunça necessária.

Abaporu disse...

Entendi...
Enganar a nós mesmos:
Uma capacidade inerente ao ser humano, que em algum momento se faz necessária.